Parece-nos tentador ficar na zona de conforto, onde nós conhecemos o que temos, podemos agarrá-lo e sentimo-nos seguros nele. Contudo, só quando nos arriscamos, saindo do ter é que o ser se revela. As pessoas possessivas desfrutam de uma aparente segurança, mas, na verdade, são inseguras, pois dependem do que têm – dinheiro, carro, moradia, prestígio etc. Enfim, dependem dos fatores que vêm de fora delas. E o que acontece quando perdem o que têm? Ficam arrasadas, deprimidas... Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A ansiedade processa-se nessa dimensão: tenho medo de ser roubado, das reformas econômico-sociais, da doença, da morte. Assim, estão sempre deprimidas e, muitas das vezes, tornam-se hipocondríacas, defensivas, movidas pela necessidade de ter sempre mais, a fim de se sentirem seguras. A ansiedade as invade, antecipando o amanhã pela dificuldade de viver o aqui agora. A ansiedade e a insegurança, movidas pelo perigo de perder o que se tem, estão ausentes no modo de ser. Se sou o que sou e não o que tenho, ninguém pode me tirar o que constitui minha segurança. Meu centro está dentro de mim mesmo, na minha capacidade de ser e de me expressar. A expressão das minhas vontades e emoções são parte do meu caráter e dependem só de mim. Enquanto o ter baseia-se em algo que diminui com o uso, o carro novo, que de início me empolgava, perde o meu interesse. O ser, por outro lado, aumenta com a prática. As forças da razão, do amor, se ampliam quando as expresso. O que se dispensa não se perde, pelo contrário, o que se conserva é o que se perde. A única ameaça à minha segurança em ser reside em mim mesmo, na falta da acreditar na vida, no seu propósito e na aceitação do meu ser, que é ambíguo, ou seja, fruto de qualidades, possibilidades, defeitos e fracassos. Sou um ser singular e respeitá-lo nas suas contradições, fugindo de padrões, faz crescer e fortalecer a consequente autoestima. É a coragem de ser imperfeito que nos mobiliza ao crescimento pessoal, de que tanto nos fala Brené Brownn. Somos um ser em construção e não acabado, como acreditávamos. E quando assumimos esse processo de busca e desenvolvimento é que nos tornamos esse ser singular, onde está a nossa identidade pessoal única. E o mergulhar propiciado pela psicoterapia nessa interiorização do meu ser, onde fatos, emoções inacabadas e traumas são resgatados, a fim de tornar-me eu mesmo. A sua ausência cria um vazio existencial propício a uma intensa tristeza, que por vezes leva à depressão. Essa é, na minha percepção como psicoterapeuta, o ponto resolutivo da depressão e ansiedade tão presentes no dia de hoje. Um caminhar difícil se nos apresenta, pois precisamos vencer muitos obstáculos pessoais, inclusive essa sociedade que nos ilude com o ter. Mas vale a pena desbravar esse caminho! Deixar de ser fotocópias do sistema, para nos tornar seres originais. Desafio o leitor a iniciar essa empreitada com a célebre frase de Miguel de Cervantes: “Caminhante não há caminho. Se faz o caminho ao andar”.