[[legacy_image_303855]] As guerras voltaram ao noticiário internacional. Diga-se, as guerras com algum poder de comoção. Foi assim a partir do ano passado, quando teve início a ocupação russa do território ucraniano. É assim agora, com os ataques do Hamas ao território israelense, desde sábado passado. Enquanto isso, o Iêmen arde e os conflitos africanos no Sahel seguem quase sem importância na mídia tradicional, em termos de foco ou potencial de empatia. Voltando à guerra em evidência, há fatos concretos: o Hamas usou expedientes de terror, ao atacar populações civis, matando pessoas desarmadas e sequestrando quem estava do lado leste da fronteira de Gaza. Não é possível que se ignore fatos como estes. Como também é inevitável chamar a atenção para o que ocorre há muito tempo naquela pequena faixa de terra, tida por seus habitantes como “a maior prisão a céu aberto do mundo”. Em Gaza, com o cerco israelense desde 2007, toda a sorte de privações foi imposta aos cerca de 2,3 milhões de habitantes ao longo dos 365 km quadrados: fornecimento precário de energia elétrica, interrupção dos sistemas de tratamento de água, proibição de saída do território – mesmo que para atendimento médico. “Privar toda a população de Gaza de eletricidade e combustível pelas ações de indivíduos é uma forma de punição coletiva”, diz a Human Rights Watch. Aliado a isso, há a continuidade da instalação dos assentamentos de colonos judeus na outra parte da terra palestina, na Cisjordândia, estimuladas pelo ministro da Segurança Nacional, o extremista de direita Itamar Ben Gvir. Agora, em um confronto assimétrico, Israel bombardeia indiscriminadamente o território de Gaza. Prédios inteiros, escolas e hospitais são atingidos neste processo de revide pelos condenáveis ataques do Hamas. E mais vítimas civis sucumbem aos mísseis e armas proibidas pela comunidade internacional, como o fósforo branco. Somando os dois lados, já se tem mais de 2.500 mortos. É evidente que Israel tem o direito de se defender. O país foi pego de surpresa pela chuva de foguetes e incursões por terra e mar levadas a cabo pelos integrantes do movimento radical islâmico. Na resposta israelense, centenas de pessoas em Gaza foram mortas, inclusive 11 funcionários das Nações Unidas em missão humanitária no território. Se um tem uma poderosa estrutura bélica, que efetua bombardeios indiscriminados, o outro lado usa da chantagem com reféns civis para uma mórbida barganha. Sem contar o risco de o conflito escalar, com a entrada de atores que transversalmente operam em áreas de influência afins. O Oriente Médio, onde se despontavam insights mais assertivos, com o entendimento entre Israel e estados árabes, costurado pelos Acordos de Abraão de 2020, pode voltar à estaca zero em termos estabilidade regional. Mas mesmo esses entendimentos, como os que vinham sendo negociados entre israelenses e sauditas, agora momentaneamente congelados, não poderão ignorar a questão palestina. A proposta de dois estados em estágio harmonioso, iniciada ainda em 1947 – um ano antes da criação de Israel - deve ser reconsiderada em termos mais justos e profundos do que expedientes anteriores, vide a autonomia limitada de Gaza e da Cisjordânia, forjada pelos controversos Acordos de Oslo de 1993. Utopia? Talvez. Mas é preciso dar novos e assertivos passos. Há uma ordem internacional em mutação, e a questão humana precisa estar no centro dessas decisões, com participação de atores dispostos e bem-intencionados na emergência da concertação. Para isso, deveria servir a tão discutida perspectiva multipolar.