(Marcello Casal Jr./ Agência Brasil) Estou impressionado com a súbita e comovente preocupação de parte da classe política com o trabalhador brasileiro. Agora descobriram que ele precisa trabalhar menos, descansar mais e viver melhor. Tudo muito bonito. Mas fica a pergunta: trata-se de genuína preocupação social ou de mais uma temporada do velho teatro populista em busca de votos? Os defensores da ideia correm logo para citar a Europa. “Mas lá funciona!”, dizem alguns, como se bastasse copiar um modelo estrangeiro e colar no Brasil, país onde abrir uma empresa já exige mais coragem do que capital. O detalhe é que ignoram convenientemente os efeitos colaterais dessas experiências e, principalmente, a diferença brutal entre as realidades econômicas. Enquanto isso, muitos trabalhadores (e até quem não trabalha) compram a narrativa de que empresários são vilões trancados em escritórios, planejando explorar funcionários em fábricas infernais. Curiosamente, essas mesmas “empresas infernais” estão deixando o Brasil e migrando para países onde, num passe de mágica, passam a ser chamadas de “investimentos estrangeiros”. O caso do Paraguai é emblemático. O país que durante décadas virou alvo de piadas por causa das falsificações hoje atrai empresas, investimentos e indústrias brasileiras cansadas do nosso manicômio tributário e da insegurança jurídica. Talvez esteja chegando a hora de percebermos que o personagem da piada mudou de endereço. A França costuma ser citada como exemplo da redução da jornada de trabalho. Há cerca de 25 anos, adotou a semana de 35 horas prometendo mais empregos e melhor qualidade de vida. Funcionou? Nem tudo virou comercial de queijo francês. O ritmo de trabalho ficou mais intenso, aumentaram as reclamações sobre pressão psicológica, os custos para o governo dispararam e a competitividade do país sofreu. Os trabalhadores, inclusive, convivem com congelamento salarial. Voltando ao Brasil: já convivemos com um dos sistemas tributários mais caóticos do planeta, insegurança jurídica permanente e baixa competitividade internacional. Agora surge mais uma proposta vendida como solução mágica, embora seja apenas outra dose de anestesia eleitoral. A pergunta que fica: até quando continuaremos tratando produtividade e competitividade como detalhes irrelevantes? E mais importante: será que o eleitor percebe quando está diante de uma solução real ou apenas de mais uma embalagem bonita para velhas promessas? Vamos ver. *William Horstmann. Engenheiro, ex-executivo e consultor