[[legacy_image_313219]] Durante as filmagens de A Lista de Schindler, Steven Spielberg, que ganharia um Oscar com esse filme, terminava o dia comido de angústia: era como presenciar as atrocidades dos campos de concentração e o massacre de seu povo ao vivo e em tempo real. Sua saída para conseguir encerrar o dia e se preparar para mais outro dia dentro do campo de concentração era ligar para seu amigo, Robin Williams, e dar boas gargalhadas com a sua capacidade de disparar piadas como uma metralhadora. Há pouco tempo recebemos a notícia da morte prematura de um grande comediante de sua geração: Mathew Perry, o Chandler de Friends, que se afogou na própria banheira, provavelmente sob efeito de substâncias ou depois de um mal súbito. Mathew viveu, como muitos comediantes, o paradoxo de saber extrair a graça das pequenas coisas do cotidiano e divertir a todos com seu fabuloso talento, tendo em sua vida pessoal períodos de profundas trevas, com depressões graves e uso de álcool e várias drogas, o que determinou muitas internações, tratamentos e tentativas de reabilitação, mas sempre com a característica crônica e recorrente desses transtornos levando a muito sofrimento dos pacientes e de seus seres amados. Ele sempre foi muito aberto ao expor publicamente a sua doença, para trazer luz ao problema e benefício aos que partilham desse sofrimento. Robin Williams também encerrou sua vida tragicamente. Ele nos alegrou e marcou com personagens cômicos inesquecíveis. Poucas vezes pude ver alguém transmitir tanta tristeza em seu olhar como esse e outros personagens dramáticos de Robin. Estudos mostram que comediantes têm muito mais alterações de humor, depressões e risco de uso e abuso de drogas que a população em geral. Você corre mais risco psiquiátrico sendo um comediante do que sendo um contador. Nada contra nenhuma das duas profissões. Mas é grande a carga de estresse de quem esconde a própria tristeza com seu talento, ou busca ser amado agradando e divertindo as pessoas. Essa é a cilada do palhaço: ao mesmo tempo que ajuda as pessoas a transcender a própria angústia, como Robin Williams arrancando gargalhadas de Stephen Spielberg, no final do dia, é como se ficassem presos dentro dessa persona alegre, sem espaço para a própria dor. Jim Carrey, que também falou e ajudou muitas pessoas com os relatos de suas depressões, pegou um trecho de um escritor que fez a brincadeira com a palavra “depressed” (deprimido) para “deep rest” (descanso profundo). Nossa maior ânsia na vida é receberdar amor e ser importante para as pessoas. A cilada do palhaço é achar que a sua valência está toda relacionada com sua face alegre. E nunca cuidar da ferida que fica debaixo da sua máscara. Essa necessidade compulsiva de ser feliz e divertir as pessoas acaba terminando em um cansaço profundo. E sua última cena não evoca em nós nenhum riso, mas algumas lágrimas de saudade.