O barulho da escola incomoda moradores, o movimento da lanchonete perturba os apartamentos, fechar a orla para uma corrida desagrada quem passa de carro, um show no bairro tira o sono, crianças brincando na rua incomodam, o churrasco entre amigos vira pauta de condomínio. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O apito do navio incomoda, o trem incomoda, a música e a festa incomodam, a infância, quando faz barulho, também. A cidade está chata, ou talvez sejamos nós que tenhamos perdido a paciência necessária para viver entre pessoas. É claro que ruído excessivo faz mal, o direito ao descanso é parte da civilização, mas existe diferença entre conter o abuso e desejar que a cidade inteira se comporte como uma sala de espera onde qualquer sinal de vida parece inadequado. Toda cidade viva tem uma música própria, há a bola no chão, a conversa na calçada, o vendedor chamando, o sino, o motor, a gargalhada na varanda, o apito do porto e o ferro do trem, sons que nem sempre agradam, mas revelam quem somos e onde vivemos. O incômodo não nasce apenas do volume, cresce quando o som é inesperado, repetitivo e foge ao nosso controle, e a cidade, por definição, é feita do que não controlamos, é o lugar onde a vida dos outros atravessa a nossa, com delicadeza ou sem pedir licença. Talvez o problema comece quando deixamos de perguntar “está alto demais?” e passamos a pensar “por que essas pessoas estão aqui?”. Queremos escolas, mas não seus recreios, restaurantes, mas não seus clientes, eventos, mas longe de casa, defendemos os espaços públicos, desde que o público não apareça em excesso, celebramos a cidade vibrante nos discursos e, na prática, esperamos que ela permaneça bonita, organizada e em silêncio. Só que cidade sem ruído nenhum não é cidade, é maquete. Conviver exige limites, horários, planejamento e fiscalização, mas exige também algo mais raro, reconhecer que o outro tem o mesmo direito de existir na cidade, com seus hábitos, encontros e sua maneira de ocupar o mundo. O direito ao descanso e o direito à alegria precisam morar no mesmo endereço. Talvez a cidade não esteja apenas barulhenta, talvez esteja cansada de moradores que desejam usufruir de tudo o que ela oferece, desde que nada chegue perto demais, desde que a escola não seja ouvida, a festa não apareça, a criança não corra e o vizinho não receba amigos. Quando toda manifestação da vida alheia começa a incomodar, o problema talvez já não esteja no volume da cidade, talvez esteja no silêncio que fizemos crescer dentro de nós.