<p data-end="736" data-start="148">Existem perdas que acontecem no mais absoluto silêncio. A visão, infelizmente, costuma ser assim. Enquanto os olhos ainda captam o que está logo à frente, o cérebro cria uma sensação enganosa de normalidade. A vida segue sem alterações aparentes, até que pequenos sinais começam a surgir. Foi exatamente assim com o Seu Antônio. Aos 62 anos, ele lia o jornal sem dificuldades, dirigia pelas ruas de Santos e orgulhava-se de nunca ter precisado de óculos. Homem trabalhador e independente, ele acreditava enxergar bem: se via os detalhes à sua frente, por que procuraria um oftalmologista?</p> <p data-end="1025" data-start="738">Com o tempo, porém, situações corriqueiras tornaram-se alertas ignorados. Esbarrões em batentes de portas, objetos derrubados ao lado da mesa e dificuldades crescentes em manobrar o carro ou dirigir à noite. Em casa, a família atribuía tudo à distração ou à idade, mas a causa era outra.</p> <p data-end="1321" data-start="1027">O glaucoma provoca, inicialmente, a perda do campo visual periférico — a visão lateral. O que torna a doença perigosa é que a visão central permanece preservada por muito tempo, sustentando uma falsa impressão de saúde ocular. Por isso, a maioria dos pacientes não percebe o problema no início.</p> <p data-end="1743" data-start="1323">Quando Seu Antônio finalmente buscou avaliação, o diagnóstico foi contundente: glaucoma avançado! No consultório, recordou-se de um tio que perdera a visão pela mesma causa, mas nunca imaginou que o destino se repetiria com ele. Saiu da consulta em silêncio, compreendendo que parte importante de sua visão estava comprometida de forma definitiva e, o mais doloroso, que boa parte daquela perda poderia ter sido evitada.</p> <p data-end="2209" data-start="1745">Hoje, o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo. No Brasil, estima-se que 80% das pessoas com a doença ainda não saibam que a têm. A prevalência aumenta com a idade — atingindo 2% após os 40 anos e chegando a 8% após os 70 — e tem como principal fator de risco a pressão ocular elevada. O risco é ainda maior para diabéticos, usuários crônicos de corticoides, míopes e pessoas com histórico familiar ou de etnias africana, asiática e latina.</p> <p data-end="2516" data-start="2211">O diagnóstico é simples, feito em consulta de rotina com a medida da pressão ocular e avaliação do nervo óptico. E existe tratamento eficaz: colírios, laser e cirurgias conseguem controlar a pressão e retardar a progressão. Entre os que tratam adequadamente, apenas um em cada sete evolui para a cegueira.</p> <p data-end="2807" data-start="2518">Em Santos, onde muitos idosos vivem sozinhos, o diagnóstico precoce é decisivo e o alerta torna-se vital. Neste mês, a campanha Maio Verde reforça a necessidade dessa conscientização. Afinal, no glaucoma, a visão muitas vezes vai embora antes mesmo que se perceba que ela começou a partir.</p> <p data-end="2968" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="2809">*Marcello Colombo Barboza. Professor universitário doutor e livre-docente em Oftalmologia, MBA FGV em gestão de Saúde e Diretor Clínico do Hospital Visão Laser</p>