Foto ilustrativa (Reprodução) Entre as numerosas notícias que a imprensa brasileira foi dispersando ao longo dos anos, uma, publicada em julho de 1937 no jornal carioca A Noite, merece regressar à luz. A nota anunciava um projeto de invulgar alcance cultural: a aquisição da casa da Rua Joaquim Távora, 268, que fora propriedade do Poeta e de sua segunda esposa, destinando-a à criação da “Fundação Casa de Martins Fontes”. Nesse espaço funcionaria uma biblioteca pública e promover-se-iam saraus literários, numa homenagem concebida para perpetuar a sua vida e a sua obra literária. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não deixa de me surpreender que uma iniciativa de contornos aparentemente modestos encerrasse uma ambição tão vasta. O propósito excedia largamente a simples conservação de um edifício. Pretendia-se devolver-lhe uma razão de existir, transformando-o num lugar de leitura, de estudo e de encontro, onde escritores, estudantes e leitores encontrassem um território comum para a reflexão, a conversa e a criação. Aquela casa conservava muito mais do que paredes, pois guardava a memória silenciosa de um dos melhores poetas da Língua Portuguesa. Contudo, o projeto nunca saiu do papel. A Fundação Casa de Martins Fontes permaneceu apenas no domínio das intenções, privando Santos de um espaço que poderia ter desempenhado um papel relevante na preservação da sua memória literária. É inevitável pensar no que ali poderia ter acontecido: conferências, leituras públicas, encontros entre gerações de escritores e estudantes e turistas descobrindo a importância dos versos de Martins Fontes. Ainda hoje me custa acreditar que seja demasiado tarde para recuperar aquela ideia. Resgatar esse antigo desígnio significaria reparar uma ausência que atravessou décadas e, simultaneamente, devolver a Martins Fontes um espaço onde a sua obra literária e a sua memória pudessem continuar a dialogar com novos leitores. Martins Fontes ocupa um lugar singular na história cultural de Santos e do Brasil. Restituir à cidade a casa que um dia se desejou transformar num centro de cultura seria mais do que cumprir um tributo devido. Representaria o reconhecimento de que a literatura também necessita de lugares concretos para permanecer entre nós. Sem eles, até os nomes maiores acabam por se tornar referências distantes, encerradas nas páginas dos livros, quando poderiam continuar a fazer parte da vida de uma cidade. Rui Calisto. Investigador e escritor.