[[legacy_image_325182]] Fiquei feliz em saber que o casarão da Rua Sete de Setembro com Rua da Constituição, que chamei, em artigo aqui publicado há cerca de 20 anos de A Casa Misteriosa, tem seu futuro garantido. Recuperado pela iniciativa do médico Mário Flávio Leme Paes e Alcântara, que merece todos os elogios e reconhecimento, constituindo autêntico exemplo de cidadania e compromisso com a sociedade, exigia resposta para assegurar o seu futuro. Vale novamente dizer que ele provou que é possível sonhar e ousar, dando exemplo que poderia e deveria ser repetido por empresas e outras pessoas físicas. A Prefeitura de Santos aceitou o desafio e rapidamente tomou as providências necessárias. Foi celebrado contrato de locação do imóvel por cinco anos, e anuncia-se que o espaço será inaugurado em março, com administração da Fundação Arquivo e Memória e curadoria do escritor e poeta Flávio Viegas Amoreira. A escolha do nome merece elogios. Sua dedicação e compromisso com a cultura, as letras e as artes são inequívocos, indicando que sua conduta na função será séria, responsável e comprometida ao longo do tempo. Orgulho-me em ter sido talvez uma das primeiras vozes a alertar sobre esse precioso casarão há bastante tempo, e tê-lo acompanhado, com muita apreensão, nos últimos anos de decadência. Assim, atrevo-me a fazer algumas considerações sobre o uso que se pretende dar a ele. Não há dúvida que se trata de exemplar raro do patrimônio histórico que transcende os limites da cidade: construído no início do século 20 pela Companhia Docas de Santos, tem características arquitetônicas especiais e valiosas, além de representar autêntica construção que sobreviveu, conservada e ocupada, por décadas. A conservação do patrimônio exige uso permanente. Não basta restaurar e recuperar; a utilização é fundamental. Sem isso, qualquer imóvel se degrada ao longo do tempo, como infelizmente ocorre, exigindo sucessivas intervenções e principalmente afastando o público. A criação no local, anunciada pela Prefeitura, de espaço permanente dedicado à arte e à cultura é, sem dúvida, a melhor solução possível. Gostaria, entretanto, de ver ali efetiva Casa de Cultura, não limitada à cidade. Santos é uma cidade naturalmente cosmopolita, aberta ao mundo, consequência principalmente de seu porto, o maior da América Latina, integrada com todos os povos e suas várias manifestações culturais. Nossos grandes poetas das primeiras décadas do século 20, bem como nossos artistas e intelectuais ao longo do tempo, não se limitaram a pensar e escrever sobre a cidade ou a região. Ao contrário, sempre tiveram em mente a universalidade do seu trabalho. Nada tenho contra reverenciar figuras notáveis da cultura local. Mas limitar aquele espaço à “santisticidade” pode levar ao isolamento, quiçá ao provincianismo. Tenho certeza que Flávio Viegas Amoreira, seu curador, homem que tem grandes horizontes e notável saber literário e artístico, será capaz de ir além dessa limitação. Muito mais do que exaltar valores e o jeito santista de ser, o espaço deve se transformar em autêntica Casa de Cultura, promovendo exposições, cursos, oficinas literárias, exibição de filmes e pequenos espetáculos, e convidando autores e criadores nacionais e internacionais, que traduzam e representem todas as grandes ideias que circulam pelo País e pelo mundo.