Dia desses avistei desconhecidos que desciam de seus carros em trajes esvoaçantes de tecidos e variações da mesma cor. Cumprimentaram-se com resvalos de bochechas exalando águas de colônia. A composição cromática estava muito bem arranjada para que fosse coincidência. Como estávamos próximos a uma igreja, deduzi que se encaminhavam a uma cerimônia religiosa. Eram uma comitiva de brancos, cremes e cinzas suaves. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Interpelei meu filho, que caminhava a meu lado equilibrando sacolas com ingredientes do almoço de sábado, para verificar se ele havia notado que vestiam tonalidades derivadas, pela gradação, do off-white. O que é off-white, mãe? Acho que fez a pergunta por perceber, na minha entonação, uma caneta grifa-texto, já que desconfio da expressão. É branco?, ele quis confirmar devido ao seu crescente vocabulário inglês. Não é branco porque, se o fosse, o off seria dispensável. É um branco com um pingo, um borrão, um branco cansado de ser branco, um rebelde camuflado talvez? Pensando bem, tem personalidade para ser um excelente personagem de conto, um branco enigmático que tem algo a esconder como todo bom conto, segundo meu amigo Flávio Viegas Amoreira, sempre munido de seus Tchekhovs e Piglias, mestres das narrativas enxutas e desconcertantes. Minha divagação, porém, se estende a outros anglicismos que desaportuguesam nossa maneira de pensar. Se o tom é off-white, passamos a marcar calls, dar ghosting, estar com o projeto in progress, aguardar um match e agendar um meet and greet com uma leitora de meus livros infantis (por sugestão da mãe). E, claro, agora farmamos aura, de empréstimo dos jogos on-line. Isso me causa a impressão de que somos obstinadamente receptivos a estrangeirismos importados de culturas que cultuamos porque talvez eles nos facilitem a vida em contextos que exigiriam precisão e profundidade. Fugimos enlouquecidamente de uma e de outra em nossa comunicação cotidiana mal-enunciada e mal-compreendida. Se à luz do dia, em esquinas, padarias e escritórios de burocracia, a linguagem murcha como um organismo fragilizado em leito de UTI, à sombra da noite, em boemias, quartos de amantes e bibliotecas, ela resplandece, convidando-nos a combinar telefonemas, dizer adeus honestamente, admitir que o projeto, como nós, está inacabado, desejar encontros sem rodeios patéticos e marcar cafés, despedidas, revoluções, surubas, greves, giras de caboclo e entregas de livros. Torço para que sejamos afetados (no sentido de Espinosa) pela aura das manhas dos nossos amores e das maçãs dos nossos mitos, cantados pelos poetas.