Na minha caminhada à academia, avisto um jovem na faixa de 25 anos. Corpo sarado nos seus 1,90 metro, conquistado por exercícios e possíveis anabolizantes. Um verdadeiro Adônis, resultado do contraste entre a fragilidade e a força. Somos um ser da finitude, da ambiguidade e lutamos contra isso. Queremos viver de um corpo indestrutível, que só expressa força e poder. Nossa percepção considera o alto e forte como superior ao baixo e magro. Preconcebemos valores nesse sentido. A discriminação existe nessa dinâmica. A apreciação está comprometida nos fazendo julgar, a partir desses valores, oriundos de preconceitos. Fugir da precária condição humana é nos alienar e entrar no devaneio. Buscamos na fantasia a dimensão do super homem, para nos afastar da fragilidade, a que somos submetidos. Temos no organismo corpóreo um sistema de órgãos que desconhecemos ou preferimos ignorar. Nos causa estranheza possuirmos vísceras, pois na nossa fantasia nos concebemos como um todo forte, compacto, semelhante a uma estrutura sólida. Ao nos ferirmos ou quebrarmos o corpo, uma implosão de emoções negativas nos invade, pois choca-se com a visão idealizada que temos de nós. Vivemos, segundo a minha visão como psicoterapeuta, a ilusão de sermos habitantes de um corpo imbatível, indestrutível. O sucesso da cremação entre nós vem nesse sentido. Antes que se corrompa, mesmo morto o corpo, nós o destruímos, queimamos. Junta-se à concepção de corpo o aparentar da nossa identidade, quando nos comparamos a padrões sociais existentes. A conexão entre o corpo e a nossa mente exige estudo e reflexão. Negado pelo movimento maniqueísta da Idade Média e exacerbado pelo realismo do iluminismo, ainda é algo não resolvido entre nós. O convite é mergulhar no âmago do nosso ser, na busca do original, singular, tema a que nos referimos em artigos anteriores. Integrar esse corpo singular exige o processo de interiorização, onde a percepção do movimento consciente nos oferece a homeostasia, o equilíbrio tão necessário. Alexander Lowen (O Corpo Traído) e Wilhelm Reich (A Função do Orgasmo) buscam na sua teoria e prática psicoterápica desbloquear tensões físicas e psíquicas (couraças), permitindo a livre expressão de emoções, ocasionando o retorno da fluidez natural do organismo. Conquistar o nosso ser sem nos comparar e sermos autenticamente o que emerge de nós é quebrar o aparentar ser. Não precisamos de artifícios oriundos de padrões e marcas conceituadas para nos qualificar. O destaque fluirá da iluminação advinda do nosso farol interno. Mas, será que acreditamos no desenvolvimento e consolidação desse farol? *Psicólogo e psicoterapeuta