[[legacy_image_293295]] O inverno de 2050 está rigoroso. Há poucas semanas, completei 80 anos. Como legado dos avanços da medicina diagnóstica e preventiva, não apresento traços de Alzheimer ou de qualquer outra patologia neurodegenerativa. A mente, lúcida, reluta em aceitar o fato de meu corpo estar (muito mais) lento. Ironia para quem sempre demonstrou escassa paciência com gente lerda. Nas últimas três décadas, testemunhei a exponencial escalada da inteligência artificial, que maximizou nossa qualidade de vida. Paralelamente, ocorreu a aceleração do processo que produzirá a extinção da fêmea da subespécie Homo sapiens sapiens. Há 30 anos, pessoas que nasciam num corpo de macho da subespécie, mas, em seu íntimo, sentiam-se como fêmea, alcançaram o direito de serem chamados de mulher. Então, “mulher” passou a ter significado mais amplo e, sobretudo, indefinido (no início da década de 2020, o documentário What's a Woman? percorreu vários continentes fazendo essa pergunta a professores universitários, médicos e psicólogos, sem obter qualquer resposta conclusiva). Naquela época, as "novas mulheres" começaram a participar de provas esportivas competindo com "antigas mulheres". No início, as "novas mulheres" competiam em quantidade reduzida e em poucas modalidades. Com o tempo, todas as medalhas passaram a ser conquistadas por essas “mulheres 2.0”. Em 2050, as “antigas mulheres” só praticam esportes por recreação, pois se tornaram atletas obsoletas e não conseguem patrocinadores. Do tempo que ficou para trás, julho de 2023 foi um marco para nossa subespécie. Naquele mês, a ONG britânica Jo’s Cervical Cancer Trust publicou cartilha na qual nominava as partes íntimas femininas de maneira deplorável, sob o pretexto de que nem todas as mulheres a possuem. A princípio, a então nova nomenclatura causou enorme indignação em homens e em “antigas mulheres”. Com o tempo, difundiu-se no planeta como nomenclatura oficial em estudos sobre anatomia humana. Passou a ser condenável identificar as mulheres por um traço da anatomia que não mais era comum a todas elas. A opinião pública foi levada a crer que isso não era justo nem democrático. Normalizou-se aquela repugnante expressão, o que pavimentou a perseguição às “antigas mulheres”. Atualmente, apenas um tipo de mulher (em 2050, temos 45 tipos de mulher e 58 tipos de homem) possui a anatomia da fêmea sapiens. Integro um grupo de ativistas – fêmeas e machos sapiens – que luta pelo direito de existir das fêmeas Homo sapiens sapiens. É preciso encorajá-las. Muitas se sentem envergonhadas e culpadas, acreditam ser desleais com outras mulheres porque possuem algo a mais. Todos os outros tipos de mulher já podem gerar novos indivíduos de forma autônoma. Muitos acreditam que não há motivos para que fêmeas Homo sapiens sapiens continuem a existir. É o darwinismo desse meio de século. São tempos difíceis, mas minha organização continua a lutar pela sobrevivência da fêmea de nossa subespécie.