[[legacy_image_259107]] Nair Lacerda foi jornalista, tradutora, contista. Escreveu, todos os domingos, durante mais de 60 anos, crônicas aqui em A Tribuna, e recebeu o prêmio Jabuti como melhor tradução de 1962 com a obra clássica As Mil e Uma Noites. Seus contos eram bissextos, mas um deles foi adaptado pelo cineasta Lima Barreto e transformado no filme A Primeira Missa. Nair foi uma mulher à frente do seu tempo: intelectual engajada, defensora de causas como o voto feminino (tema de seu primeiro artigo, em 1932), foi ainda Secretária de Educação em Santo André nos anos 1960. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Nasceu e viveu no ambiente da cultura. Seu pai, Alberto Veiga, foi um dos pioneiros do jornalismo em Santos; seu irmão Octavio Veiga foi secretário de redação (hoje editor-chefe) de A Tribuna e do Diário. Os livros foram sempre seu encanto, e a longa vida foi marcada pela valorização das palavras e das ideias. Em 1974, organizou, para a Editora Cultrix, Dicionário de Pensamentos, que ainda pode ser encontrado em sebos e antiquários. Deve ter sido trabalho incrível: reunir, direto de dezenas de livros, 3.000 citações de 922 autores sobre 332 assuntos. Hoje, o Google e talvez o ChatGPT fazem essa compilação em segundos, mas vale percorrer as páginas da antiga obra e descobrir o que disseram (ou escreveram) tantos personagens da história. Transcrevo alguns. De Cícero, notável orador romano, “não há absurdo que não tenha sido aprovado por algum filósofo”. Mais adiante, “Sou ateu, graças a Deus”, frase atribuída a Cervantes. E a sentença de Meré (quem seria ele?): “A beleza é o primeiro presente que a Natureza dá às mulheres, e o primeiro que lhes tira”. Ora, o velho Marx também está presente: “Capital é trabalho morto, que, como vampiro, vive apenas de sugar o trabalho vivo; e quanto mais suga, mais vive”. O moralmente incorreto também se apresenta, com Matthew (que também não sei quem foi): “Aviso às pessoas em transe de casar-se: Não façam isso!”. Na mesma linha, dois pensamentos anônimos: “Chama-se santo ao casamento porque conta com inúmeros mártires” e “O casamento é um romance no qual o herói morre no primeiro capítulo”. Contra a censura, vem a frase de Emerson: “Cada livro queimado ilumina o mundo”. Sêneca, o estoico romano, é direto: “Toda crueldade nasce da fraqueza”. Ou o pessimismo de Camilo Castelo Branco: “Não há destinos. O que há são ilusões, enganos, sonhos de felicidade que o mundo não tem”. O psicólogo checo Max Wertheimer, um dos fundadores da Teoria da Gestalt, insurge-se contra o inferno: “Um inferno depois desta vida! Que despautério!” O ácido Mark Twain, ao referir-se ao jornalismo: “Primeiro obtenha os fatos; depois pode torcê-los tanto quanto quiser”. O poeta Chamfort é direto: “Há mais loucos que sábios, e nos próprios sábios há um pouco de loucura”. Rémy de Gourmont, mais de um século antes de Domenico de Masi, o defensor do ócio criativo, já dizia: “O ócio é a maior e mais bela conquista do homem”. Exaltando o prazer, Voltaire escreveu: “Todo mortal deve a experiência ao prazer”. Rabelais exortava todos a rir muito, “porque o riso é próprio do homem”. E para encerrar, Churchill: “Uma piada é uma coisa muito séria”. Em tempo: Nair Lacerda era minha tia, irmã da avó Carmen (Pequitita).