[[legacy_image_233954]] “Não falo mais com você. Eu achei que você era um jornalista sério, correto. Me enganei”. Tentei explicar. Meu interlocutor cortou na hora: “Você me chamou de mentiroso. E isso eu não admito! Nossa relação profissional acaba aqui”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Com os cotovelos apoiados no pequeno balcão da telefonista, Pelé estava dominado pela raiva e pelo ressentimento. Aquele jovem mineiro calmo, de fala mansa, tinha ficado em algum outro lugar. E o pior, para mim: vistas as coisas sem os pormenores de bastidor, ele tinha razão. Pela versão do jornal Última Hora, eu o chamara de mentiroso. A verdade, porém, era mais complexa. Jovem repórter, naquele início da década de 1960, eu tinha a missão que qualquer repórter do mundo adoraria: fazer a cobertura diária, para o jornal criado por Samuel Wainer, do maior time de futebol de todos os tempos. Nesse time imperava Pelé. Na véspera, Álvaro Paes Leme, o famoso editor de esportes da Última Hora, me telefonou e foi sintético: “O Milan fez uma proposta irrecusável pelo Pelé. Ouça o jogador”. A informação do meu chefe era quente. Ele tinha fontes altíssimas no Santos. A mais importante delas, o vice-presidente Modesto Roma. Pelé negou que o Santos ou ele tivessem recebido qualquer proposta, do Milan ou de qualquer outro gigante da Europa. Mandei a notícia. No dia seguinte, ao abrir o jornal, senti cheiro de pólvora. Incorretamente, a Última Hora publicava minha informação. Mas acrescentava que não era verdade. E reafirmava a informação de Paes Leme. Portanto, chamava Pelé de mentiroso. Pior: assinava meu nome na matéria. Para quem lesse, não havia dúvida: eu estava chamando o Rei de mentiroso. Ou seja, eu perdia a mais importante fonte de informação do Santos. Nada menos que o maior jogador do mundo. Apelei ao técnico Lula, meu amigo pessoal. Contei o que de fato acontecera e pedi que ele intercedesse. Mas as semanas passavam e nada ocorria. Quando já estava concluindo que eu morrera para Pelé, ele me chamou depois de um treino. “Quer fazer uma entrevista comigo, garoto?” Antes que eu me refizesse do susto, ele acrescentou: “O Lula me explicou tudo. Você é inocente. O jornal te sacaneou. Continuo confiando em você”. Para que não houvesse no meu espírito qualquer dúvida sobre o perdão real, o craque foi adiante, ressuscitando o jovem mineiro calmo: “Vem aqui, quero te dar um abraço”. O sol se punha, abrindo lugar para um outro astro e seu mais recente gol de placa: a grandeza do menino-rei.Carlos Conde, jornalista de Santos