[[legacy_image_357027]] Mal comecei a escrever para esse nobre espaço e já peço uma pausa. Permita-me, leitor, desviar dos temas marítimo-portuários para falar da tragédia que assola nossos irmãos do Rio Grande do Sul e alguns (três) aspectos que me provocaram reflexões, sentimentos e preocupações. Fui arrebatado pelas imagens e dramas que me remetem a filmes de ficção sobre o fim do mundo. Cenas que lembro ver, pela tela da TV, apenas em tsunamis e furacões devastadores, como o inesquecível Katrina. A imagem que tenho e guardo do povo do Rio Grande do Sul é de seriedade, com resiliência e valorização de sua rica e típica cultura. Tenho três advogados amigos, marítimo-portuários, entre Rio Grande e Porto Alegre. Nutro por eles grande respeito e carinho e presto a minha profunda solidariedade por todo o drama vivido pelo povo do Rio Grande do Sul. Destaco três questões que mexeram muito comigo nessa última semana. A primeira, e melhor, diz respeito à solidariedade humana. As histórias dos voluntários anônimos que largaram tudo para se dedicar ao resgate das vítimas, incluídos os animais de estimação, que colocaram seus recursos e energia em prol do socorro e remediação, são deveras comoventes e inspiradoras, e mostram uma face do nosso povo que merece ser exposta e louvada. Dos pequenos aos grandes gestos, todos. Em uma época de “guerra civil”, em que a radicalidade política envenenou as pessoas, encerrou o diálogo e rachou famílias, é alentador ver a face humana e solidária de nosso povo, mobilizado a fazer o bem, não importa a quem. Como nem tudo são flores, pelo contrário, assistir a cenas de políticos procurando tirar proveito da tragédia, homenageando empresário de sua ala política ou espalhando fake news, é abjeto. Confirma o sentimento da falência de nosso sistema político representativo, onde a motivação é a próxima eleição, custe o que custar, e o propósito eminentemente particular, relacionado a apaniguar próximos e parentes, e enriquecer. Continuo a acreditar na política como forma de organização da sociedade e na democracia como único caminho, mas é necessário repensar e reconstruir nosso modelo. O terceiro aspecto que abordo e me traz preocupação e perturbação é: o que estamos fazendo com o planeta? Na verdade, com nós mesmos, pois o planeta permanecerá. A tragédia do Rio Grande do Sul, as ondas de calor do Sudeste, a seca dos rios do arco amazônico, o apagão de energia na cidade de São Paulo são todos a mesma coisa e têm a mesma causa. Há um ano foi o Llitoral de São de Paulo, a região de São Sebastião, assolada por um dilúvio, em uma única noite, que dizimou casas e famílias, menos favorecidas. Ano passado, também no Rio Grande do Sul, ocorreram três episódios de enchentes - existem, na Justiça Estadual do RS, mais de 5 mil ações judiciais contra o Poder Público, reclamando danos causados por eventos climáticos. Nada é novo. O que resta acontecer? Os cientistas vêm alertando que se a temperatura da terra subir mais 1.5ºC, atingiremos o ponto de não retorno. A união e a solidariedade que demonstramos para socorrer os irmãos do Sul precisam servir de amálgama e mola propulsora para enfrentarmos com seriedade o desafio de preservação de nosso meio ambiente. Não podemos esperar, distraídos pelas redes, a próxima tragédia.