A expansão do Porto de Santos, conforme recente reportagem de A Tribuna, precisa ser tratada como uma avenida de oportunidades para o Brasil para uma maior inserção da nossa indústria na nova economia mundial, menos fóssil. Mais do que aumentar e melhorar a estrutura portuária, é preciso que a Autoridade Portuária de Santos (APS) perceba esse investimento como uma oportunidade para o Brasil avançar na transição energética mundial, reindustriali-zação e comércio internacional de baixo carbono fóssil. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A autorização para ampliar a poligonal do Porto em 17,2 milhões de metros chega em um momento decisivo. O mundo está no meio da transição energética, depois da fase inicial de compromissos e metas, e reorganiza cadeias produtivas para reduzir emissões, garantir segurança energética e aproximar a produção de regiões capazes de oferecer energia limpa, matérias-primas estratégicas e competitividade industrial. Nesse cenário, portos deixam de ser apenas pontos de passagem de cargas. Tornam-se plataformas de produção, energia, logística e exportação verde. Mas para que isso ocorra, a administração portuária terá de apontar os caminhos certos. Na mesma reportagem citada anteriormente, o presidente da APS, Anderson Pomini, celebra a expansão e fala que isso permitirá atender ao aumento na movimentação de cargas, atrair investimentos e gerar empregos. Porém, ele não cita qual será a estratégia perseguida. O detalhamento do cronograma da expansão também não está pronto, afirmou A Tribuna. O Porto de Santos está em uma posição estratégica para ser uma âncora da reindustrialização verde brasileira. Para isso, precisará ir além da função tradicional de escoar produtos. Os projetos em curso e, sobretudo, os planejados para a nova área devem preparar o complexo para receber plantas industriais ligadas às cadeias química, siderúrgica e de combustíveis de baixo carbono fóssil. Exportar minério, grãos e matérias-primas continuará sendo importante. Mas o salto estratégico está em exportar produtos de maior valor agregado, fabricados com energia renovável e menor participação de carbono de origem fóssil. É nesse ponto que a expansão portuária se conecta à tese do green trade, a nova dinâmica do comercio exterior a partir da demanda por produtos com menor pegada de carbono. A nova geografia do comércio internacional favorecerá bens, insumos e cadeias produtivas capazes de comprovar menor impacto climático, mas também com custos viáveis para quem os compra. A competitividade deixará de depender apenas de custo, escala e distância. Passará também pela intensidade de carbono fóssil dos produtos, pela rastreabilidade das cadeias e pela infraestrutura disponível para transportar essa produção de forma limpa. Santos pode ser um grande ativo brasileiro nessa disputa. Mas, para isso, precisa ser planejado como um porto industrial que tenha como sua estratégia de negócios a desfossilização da economia do mundo, tendo o Brasil como fornecedor de produtos finais e matérias-primas com menos carbono fóssil, não apenas como um porto maior. A APS também deve criar caminhos para a transição energética através dos combustíveis dos navios. A demanda por alternativas ao óleo combustível tende a crescer à medida que empresas, países e organismos internacionais ampliem exigências de descarbo-nização do transporte marítimo. Portos que oferecerem infraestrutura para metanol, amônia, hidrogênio e outros combustíveis de nova geração sairão na frente. Os que demorarem correm o risco de perder rotas, investimentos e relevância. Outra medida essencial para que Santos não perca a oportunidade é a adoção de tecnologias como o onshore power supply, que permite fornecer energia elétrica da rede aos navios atracados. Com isso, as embarcações podem desligar motores auxiliares movidos a combustíveis fósseis enquanto permanecem no porto. A modernização também deve incluir sistemas digitais de gestão logística, integração ferroviária e rodoviária mais eficiente, participação em corredores marítimos verdes e mecanismos econômicos que premiem embarcações de menor pegada de carbono fóssil. O vento sobra a favor de uma nova estratégia industrial nacional, que passa pelo Porto de Santos. O Porto tem escala, localização e relevância para liderar essa transformação. Mas a expansão de sua área só cumprirá todo o seu potencial se for orientada por uma visão de futuro: fazer do complexo um polo de reindustria-lização verde, uma plataforma de combustíveis sustentáveis e uma porta de entrada do Brasil no comércio global de baixo carbono fóssil. A autorização da expansão é uma oportunidade. A decisão estratégica é o que faremos com ela.