O Brasil pode se posicionar entre os protagonistas da economia global de minerais críticos. Mas essa condição vai além da exploração das reservas minerais: o diferencial está no refino - etapa que concentra valor, impulsiona a expansão das energias renováveis e da cobertura florestal. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Não existe só uma definição de minerais críticos. Estados Unidos, União Europeia e Agência Internacional de Energia adotam listas distintas, mas convergem em dois critérios: a importância estratégica para a economia, sobretudo para a transição energética, e os riscos de suprimento, seja por escassez ou pela concentração em poucos países. O equívoco comum: em muitos casos, não há escassez geológica. O gargalo está no processamento. Minérios como silício, manganês, alumínio, cobre, zinco e terras raras são relativamente abundantes; o refino é que está concentrado, hoje dominado pela China. Essa concentração, frequentemente acima de 80% da produção global, dificultou o desenvolvimento de capacidades em outros países, criando dependência. Ainda assim, o Brasil manteve nichos relevantes de refino, como silício, manganês, zinco e níquel - base que pode ser expandida. O contexto geopolítico e a transição energética estão levando grandes economias a diversificar cadeias de suprimento. Isso abre uma janela para o Brasil não apenas como fornecedor de matéria-prima, mas de materiais processados. O País reúne condições singulares. Além da base mineral, dispõe de dois insumos críticos: energia renovável e carbono biogênico. O refino é intensivo em energia e depende de carbono como agente redutor. Com alumínio, silício, cobre e zinco, a eletricidade é o principal custo, representando entre 30% e 60% do valor. A produção de uma tonelada demanda entre 10 e 17 Megawatt-hora (MWh). Na prática, quando se exportam esses metais, exporta-se energia incorporada. Se o Brasil mantiver e ampliar a geração renovável a custos competitivos, esses materiais tornam-se um vetor de powershoring, atraindo investimentos e impulsionando a expansão energética. Para silício, manganês, ferro e aço, o carbono é essencial. Pode representar entre 20% e 40% do custo, sendo dominante em rotas como ferro-gusa e ferroligas. Globalmente, utiliza-se carvão fóssil - classificado como crítico pela União Europeia. Seu papel explica essa dependência. É aqui que surge uma vantagem brasileira. O Brasil já usa biocarbono como redutor renovável, viabilizando refino de minerais sem emissões fósseis. Hoje, cerca de 1 milhão de hectares de florestas plantadas produzem 6 milhões de toneladas de carvão vegetal, suficientes para cerca de 10 milhões de toneladas de gusa e mais de 1 milhão de toneladas de ferroligas e silício. Com processos mais eficientes e uso de áreas degradadas para expandir a silvicultura, essa bioeconomia pode complementar o powershoring, atraindo investimentos e ampliando a cobertura florestal. A demanda por insumos sustentáveis está se consolidando. A dependência da China já não é aceitável para muitas economias, e o Brasil oferece capacidade em um ambiente democrático e estável. A União Europeia, por exemplo, já valoriza produtos de baixa pegada de carbono por meio de mecanismos como o CBAM. Para aproveitar essa oportunidade, o Brasil deve aprimorar o arcabouço regulatório, garantir expansão renovável competitiva e eliminar a chaga do desmatamento ilegal, promovendo uma economia florestal com integridade. Com isso, pode se posicionar como parceiro estratégico confiável para Europa, Estados Unidos e Ásia - fornecendo materiais críticos com qualidade e menor pegada de carbono. Mais do que extrair recursos, trata-se de capturar valor, gerar empregos e transformar vantagem natural em desenvolvimento sustentável. A janela está aberta - aproveitá-la é uma escolha estratégica. Colaboração de Philipp Hauser, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto E+ Transição Energética