<p data-path-to-node="0">As tensões geopolíticas crescentes exigem que a transição energética vá além do desempenho ambiental das tecnologias disponíveis. É preciso desenvolver cadeias de valor desfossilizadas, mas também flexíveis, diversificadas e resilientes. Nesse processo, os portos podem assumir um papel mais estratégico em termos de segurança energética e coordenação industrial.</p> <p data-path-to-node="1">A Climate Week NYC, realizada no fim de setembro de 2026 em paralelo à Assembleia Geral das Nações Unidas, evidenciou essa mudança de perspectiva. A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio e demais tensões internacionais em curso não pautaram diretamente a maior parte dos eventos, mas formaram o pano de fundo das discussões: governos e empresas atuam num ambiente geopolítico marcado cada vez menos por consensos e mais por alianças pragmáticas.</p> <p data-path-to-node="2">Nesse contexto, processos mais resilientes podem oferecer maior segurança energética aos países e reduzir riscos para o capital privado. A garantia de suprimento, a diversificação de parceiros e condições adequadas de financiamento ganham, assim, centralidade ainda maior na composição da agenda climática.</p> <p data-path-to-node="3">Mas conciliar descarbonização, desenvolvimento industrial, acesso à tecnologia, preços viáveis e equidade exige superar diferenças de prioridades. Especialistas em clima cobram velocidade na redução das emissões. Negociadores comerciais defendem acesso a mercados, não discriminação e previsibilidade regulatória. Formuladores de políticas industriais querem ampliar a produção, gerar empregos e reduzir vulnerabilidades na oferta de suprimentos.</p> <p data-path-to-node="4">Esses objetivos são interdependentes, mas precisam ser tratados de maneira conjunta. Na descarbonização do transporte marítimo, por exemplo, o debate antes se concentrava na disputa entre diferentes alternativas, como biocombustíveis e combustíveis sintéticos. Agora, armadores, portos e demais atores do setor começam a reconhecer que a solução provavelmente dependerá da combinação de combustíveis, fornecedores e regiões produtoras.</p> <p data-path-to-node="5">A mesma lógica vale para minerais, equipamentos, componentes industriais e infraestrutura. Quanto mais concentrada uma cadeia, maior sua exposição a disputas comerciais, instabilidade política, eventos climáticos extremos e restrições logísticas. Condições para que superem adversidades devem, portanto, ser incorporadas ao planejamento desde o início dos projetos, e não apenas mobilizadas como respostas emergenciais a crises.</p> <p data-path-to-node="6">Os sistemas logísticos portuários são elementos críticos dessas cadeias. Ao concentrar o escoamento de produtos estratégicos, os portos tornam-se pontos focais para coordenar novas estruturas de valor, como os corredores verdes. Originalmente concebidos como rotas específicas atendidas por navios de baixas emissões, esses corredores ganham viabilidade quando articulam ações públicas e privadas mais amplas.</p> <p data-path-to-node="7">Para os investidores, uma visão integrada reduz incertezas. Para empresas e governos, facilita a identificação de gargalos e limita os riscos dos empreendimentos. E para o Brasil, especificamente, cria uma oportunidade de transformar vantagens ambientais - como a disponibilidade de fontes renováveis de energia - em participação mais relevante nas cadeias globais de valor.</p> <p data-path-to-node="8">Nesse sentido, é importante frisar que diversificar e tornar os fluxos mais resilientes não significa abandonar critérios ambientais nem aceitar qualquer solução, independentemente de suas características. Significa sim evitar que a desfossilização crie dependências tão frágeis quanto aquelas que se pretende superar.</p> <p data-path-to-node="9">Afinal, a transição energética precisa reduzir emissões sem simplesmente substituir a vulnerabilidade fóssil por uma nova vulnerabilidade verde. Para isso, será indispensável combinar tecnologias, fornecedores, regiões e instituições - e colocar os portos no centro dessa estratégia.</p> <p data-path-to-node="10">*Colaborou Pedro Guedes, especialista e responsável técnico de Biossoluções e Fertilizantes no Instituto E+ Transição Energética.</p>