(Fábio rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) A estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo causou uma redução de até 8,6% no montante de energia usado no País durante o jogo. Considerando que a energia tem de ser gerada e consumida simultaneamente, essa variação exigiu medidas excepcionais do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão que define quais usinas devem operar e quando, cortando a geração de usinas centralizadas para garantir o equilíbrio entre o horário do jogo, o intervalo ou o final da partida, quando naturalmente aumenta o uso de eletrodomésticos, ar condicionado e iluminação. Mais do que um evento excepcional a cada quatro anos, esse tipo de manobra se tornou parte da rotina operacional do sistema. A questão se deve principalmente ao fato de que o Brasil está entre os líderes de um outro campeonato: o da expansão da energia renovável distribuída, não controlada pelo ONS. Os sistemas distribuídos instalados nos telhados ou pequenas usinas conectadas à rede das distribuidoras já somam mais de 40 GW, de um total de 218 GW de potência instalada no País. Esse crescimento reflete, de um lado, o fato de que essa modalidade recebe forte incentivo tarifário e tributário e, por outro, o esforço para aproveitar o nosso potencial de energia limpa, garantindo que o País continue expandindo a matriz elétrica, mantendo-a entre as mais limpas do mundo. Garantir a renovabilidade é fundamental para usarmos a transição energética como instrumento do desenvolvimento socioeconômico. Isso porque nos permite ampliar a produção industrial de baixo carbono e, ao exportá-la com esse atributo, aumentar nossos mercados e melhorar nossos ganhos. A vantagem implica, no entanto, desafios importantes. Em dias de sol e baixo consumo, os sistemas de geração distribuída (GD), que entram na rede desalinhados de qualquer planejamento de oferta e demanda, podem suprir mais de um terço da energia demandada pelos brasileiros, forçando o corte de usinas de controle centralizado e mais baratas. Além de prejudicar sobremaneira a saúde econômica das usinas centralizadas, isso acaba por ter reflexos de aumento tarifário para todos os brasileiros. Ou seja, enquanto a Copa muda o perfil de uso, exigindo manobras específicas para garantir que não falte energia para gelar a cerveja ou tomar banho depois da comemoração, a GD afeta a oferta, obrigando o operador a realizar manobras para o acionamento de outras usinas para garantir o fornecimento ininterrupto quando as nuvens tomam os céus, o dia termina ou ainda a geração ultrapassa o consumo e possa provocar um gol contra: a queda do sistema por excesso de geração. Em muitas situações, isso pressupõe o acionamento de usinas térmicas poluentes que justamente podem afetar a qualidade da matriz elétrica brasileira que a energia solar tem favorecido. O desafio, portanto, é melhorar as condições de flexibilidade do sistema para facilitar a gestão e reduzir o custo das manobras que o ONS tem usado para garantir o atendimento durante os jogos e tem adotado cada vez mais como prática cotidiana. A resposta da demanda - quando grandes consumidores deslocam seu consumo para horários de maior oferta - e a disponibilidade de baterias no sistema são alternativas para que essa gestão seja feita com menor comprometimento da qualidade da matriz e a custos relativamente mais baixos para os consumidores. O Brasil, com acertos, tem condições de ir longe e fazer bonito nessa Copa. Mas, claro, isso depende não só de tática e treino, mas de sorte. Já quanto à Copa da transição, o País está trabalhando firme, mas precisa evitar as implicações do acaso. O sucesso do trabalho do operador, ajustes que garantam mais flexibilidade ao sistema e a revisão do modelo de inserção da GD podem permitir que as vantagens da energia distribuída não impliquem justamente a alta de tarifas e emissões que precisamos combater.