(Imagem ilustrativa/Pexels) Dia desses, estava no mercado, na fila do pão. O sujeito na minha frente tinha a mão direita em concha na orelha, segurando o telefone. A esquerda parecia um dançarino bailando no ar. Ele não falava ao celular: falava com o celular – e o aparelho era surdo. De modo que a fila do pão, o mercado, o bairro, a cidade e o mundo ouviam a conversa, que ora tinha arroubos de animação, ora retoques de filosofia. Foi assim que não pude deixar de escutar, ainda que fechasse os ouvidos: “Vamos esperar. Amanhã, o mundo acaba”. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Baque. A irritação com o sujeito passou. Senti um aperto na barriga, da barriga ao peito, do peito à cabeça, até que fui tomado pela ideia fixa: e se o mundo acabasse mesmo amanhã? Uma das minhas últimas ações na vida teria sido apenas ficar plantado na fila do pão – para comprar três médias amanhecidas e um pão de cará chechelento? Se o mundo acabasse amanhã, voltaria correndo para casa, e com meu amor nos braços, lhe entregaria o maior beijo de nossas vidas. Pegaria o telefone, ligaria para meus filhos e diria muito mais do que as palavras poderiam conter. Se o mundo acabasse amanhã, esqueceria das mãos e acariciaria meus gatos com a alma. À noite, pediria a pizza mais cara do cardápio e brindaria com os garçons até o restaurante fechar. Deixaria a louça para o fim do mundo lavar. Iria ao cinema apenas para comer pipoca com guaraná. Subiria a escada rolante que desce. Faria chuva de papel picado depois de rasgar as contas do mês. Cortaria as unhas pela última vez e cozinharia o melhor feijão da história do bairro. Daria um tapinha nas costas do vizinho chato. Depois, tocaria a campainha da casa dele e sairia correndo. Se o mundo acabasse amanhã, me juntaria aos lobos para uivar à lua. Andaria de braços abertos na mureta do canal. Tomaria à meia-noite o último banho de mar. Diria a meu chefe para esquecer o expediente e ir dançar. Daria risada da monotonia dos semáforos, enquanto voaria com o olhar nas asas daquele bem-te-vi. Subiria na árvore mais alta da rua e gritaria pra todo mundo ver. Assaltaria o banco e queimaria o dinheiro. Teria ainda mais pena da cegueira dos que veem. Molharia os lábios na mais gelada das cervejas, bebendo bem devagar, porque nunca mais haveria pressa. Se o mundo acabasse amanhã... “Bom dia”, o atendente esperava o meu pedido. O sujeito da minha frente já se afastava e não parecia preocupado com o fim do mundo: levava quatro sacos de pão, queijo, presunto e requeijão. Esqueci da fila e fui até ele. “Dá licença”. Ele se virou, surpreso. “Desculpe, não consegui deixar de ouvir a conversa. O senhor disse que o mundo vai acabar...”. Ele sorriu, aliviado. “Ele prometeu”. “Ele? Quem?”. “Homundo, meu primo. Disse que acaba amanhã o relatório de vendas da firma”. Virou-se e foi embora. Quando percebi, a fila do pão tinha andado e me deixou para trás. Para o bem ou para o mal, o mundo continua do jeito que sempre esteve.