(Imagem ilustrativa/Arisa Chattasa/Unsplash) A porta do elevador abre no vigésimo andar, o último do prédio. Um homem de meia idade, terno, sapato marrom bem lustrado, entra sem desgrudar os olhos do celular. De cabeça baixa ignora a própria imagem no espelho e a porta fechando-se suave à sua frente. O elevador desce. Após freios de cabos e engrenagens, para de novo, cinco andares abaixo. A porta se abre, entra um rapaz de seus vinte anos, garrafinha de água, toalha no ombro, tênis meia roupa certinhos, arrastando o perfume como um bicho de estimação. O jovem ignora o homem de meia idade, que não faz menção de desgrudar a cara do celular, e fica se olhando em frente ao espelho. A porta se fecha, o elevador desce rápido, até parar de novo, no sétimo andar. Uma senhora de uns sessenta anos, cabelos grisalhos, vestido florido até o joelho, sandália surrada, entra e dá bom dia como quem pede desculpa. Recebe em resposta um grunhido do homem no celular e um olhar de relance do jovem ao espelho. A porta se fecha. Nem bem desce dois andares, as luzes se apagam, os motores morrem e o elevador estanca. Os três tomam um susto. Olham-se e se enxergam pela primeira vez. Então ouvem o som de um clique agudo, a luz de emergência se acende e os três se veem com rostos dourados de boate. “Essa não... estou com pressa!”, o homem bufou. A mulher abaixou a cabeça. “Ei, a senhora não é empregada? Tem que pegar o outro elevador”. Virou-se para o jovem: “Não é?”. “É”, respondeu sem se desviar do espelho. “Acabei de ser demitida...”, disse a mulher, um fiapo de voz. O homem: “Boa coisa não fez. Por que?”. “Porque me calei”. “Quem cala é culpado”, virou-se para o jovem: “Não é?”. “É”, respondeu, tirando selfie do bíceps. “Os culpados costumam falar demais”. Quando o homem preparava-se para retrucar, a cabine estremeceu, as luzes acenderam-se, o motor rugiu e o elevador desceu. No térreo, a porta abriu-se, cada um seguiu seu caminho, como se nunca tivessem se visto. “O inferno são os elevadores”, diria Sartre, se presenciasse a cena.