Arlênio nasceu e chorou, como devem chorar os bebês ao nascer. Peso: três quilos e meio precisos. Altura, ou melhor, comprimento: cinquenta centímetros justos — altura só haverá quando puder, sozinho, sustentar-se nos pés. Arlênio, portanto, é mediano. Mas, para sua mãe e seu pai, alegria maior ainda está para existir, de tal forma que eles duvidam seja sequer possível. Aliás, assim deve ser para todos os pais e mães do planeta: sendo única a alegria, terá sempre nomes e sorrisos diferentes. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Arlênio foi crescendo como toda criança deve crescer: do papá e mamã das primeiras sílabas ao dia em que a fralda perdeu o sentido; da incerteza dos primeiros passos às palavras iniciais vertidas, pela sua mão, do lápis ao caderno. Arlênio foi, pois, crescendo, e com ele também foi crescendo um companheiro incômodo: o medo. Primeiro, porque teve medo de cachorro, privou-se dessa faceta do carinho. Depois, porque teve medo de trovão, repudiou a magia das tempestades. Então, porque teve medo de fantasmas, repeliu belas histórias fantásticas. Assim foi: Porque teve medo de quebrar a tíbia e o perônio, não dividiu aquela bola no futebol da rua. Porque teve medo de errar, não levantou a mão na gincana de História, mesmo sabendo a resposta de cor. Porque teve medo de ter medo, não se virou ao ouvir o oi daquela menina às suas costas. Porque teve medo de contar, não reclamou do troco errado. Porque teve medo de voar, deixou de pular de asa-delta. Porque teria medo da altura, não viajou de avião (não viajou de qualquer jeito, por ter medo dos novos destinos). Porque teve medo de ser enganado, não comprou nem vendeu. Por ter medo do espelho, colocava uma venda ao escovar os dentes. Porque teve medo do que pensariam dele, não se fantasiou no Carnaval. Por ter medo da lua, à noite, queria ver o sol; de dia, por medo do sol, ansiava pela lua. Porque teve medo de se afogar, jamais sentiu a carícia do mar. Porque teve medo da avalanche da vitória e da depressão da derrota, nunca se permitiu jogar e jamais sentiu a emoção de torcer. Porque teve medo do vilão, apegou-se ao herói. Quando o herói revelou a própria vilania, ajoelhou-se aos profetas. E teve medo da verdade. Teve medo do canto, porque não era pássaro. Teve medo da água, porque não era rio. Teve medo do céu, porque era pálido. Teve medo da flor, porque desconhecia perfume. Teve medo de si, porque não era outro – e, se fosse outro, temeria. E porque teve tanto medo da vida, um dia morreu. E agora, o que faço, se nada mais há a temer, logo eu, cujo medo concreto se dissolveu? E ainda depois de morto, achou por onde, temeu: se cá estou, um nada, e tudo serei, imenso será este medo, pois se a vida apagou-se, aceso estará na eternidade.