Quem nunca teve o desejo de fazer as coisas de maneira diversa da que os outros fazem? (Arte: Max) Fosse pela incômoda sensação de ser mais uma rês em meio à boiada ou apenas para afrontar os costumes, quem nunca teve o desejo de fazer as coisas de maneira diversa da que os outros fazem? Tem dias que pulo da cama e me ponho a escovar os dentes com a mão esquerda, sendo destro. Os dentes nunca ficaram mais limpos por causa disso, mas eu termino a tarefa feliz, apesar da gengiva ferida, após as escorregadas e resvaladas da escova. Na hora do café, uma dessas manhãs, a água estava fervendo e o coador a postos, quando despertei de fato e me dei conta de não lembrar como tinha preparado tudo até ali. Então joguei fora o filtro, atirei longe o coador e encostei a garrafa no canto da pia. Coloquei o pó de café diretamente na xícara, sem intermediários, e despejei a água, que já fervia. Preparei café solúvel do pó nosso de cada dia. Inventei uma nova forma de fazer café, meio turca, meio italiana. Senti de mim um orgulho robusto, apesar do gosto horrendo da bebida. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Mas essas estripulias são de pouca monta, inofensivas: nascem espontâneas como o sol por trás do mundo, a cada manhã. O problema começa quando surge a pergunta: “E se...?”. Eis uma porta que se abre, às vezes rangendo, tímida, outras escancarando-se diante de nós. Mas em todas as vezes, além da soleira, há um universo novinho em folha fazendo ‘psiu’ e piscando, convidando a entrar. O chamado é tentador, difícil resistir a esse canto de sereia: e se eu levasse o Fusquinha 76 ao meu mecânico de confiança para transformá-lo em uma BMW? E se eu vestisse a camisa do pijama do avesso, dormiria com as bruxas? E se as casas não tivessem portas? E se os tetos dessas mesmas casas fossem transparentes, para o céu entrar sem pedir licença? E se o sorvete jamais derretesse? E se a gente trocasse os pés pelas mãos apenas para dançar? E se o cavalo se apaixonasse pelo unicórnio? E se os códigos de barras aliviassem a barra? E se eu, ao mirar o espelho da vida, não houvesse te conhecido, meu amor, o que seria de mim? Nem o céu é o limite ao “e se...?”. A imaginação, infinita e eterna, dá o tom ao que o ser humano tem de melhor: a capacidade de expandir-se ao além, sem sair de si mesmo. Por ela, a mão alcança o tempo que dobrou a esquina, o olho enxerga por trás das paredes do sonho. E não me digam que a ciência, dos pesos e medidas, cores e cheiros, nada deve à imaginação. Ao contrário: a semente do admirável mundo novo só pode germinar de sua terra fértil. Vejam o exemplo de Einstein, que aos 16 anos se perguntou: “Se eu viajasse em um raio de luz, o que aconteceria?”. Dez anos depois, aconteceu a Teoria da Relatividade. Mas a imaginação não tem partido, time de futebol, nem investe na bolsa. É para o bem ou para o mal. Cabe a nós zelar pelo mundo que queremos moldar. Nesse sentido, andamos com falta de imaginação: como pensar, ao fazer o prato do almoço, que tem gente ainda sem comida? E que, da água que bebemos, há muitos com sede? Há, ainda, as vítimas da doença da imaginação, a megalomania. Um dia, imaginamos ser o umbigo do universo. Devidamente destronados, aturdidos, como que despertando para um dia de ressaca, é preciso mais do que nunca lembrar, por entre a névoa da ebriedade, antes que nos esqueçamos de vez de nós, o que nos trouxe até aqui e que pode nos levar adiante: o amor. Por você, por mim. E pela própria imaginação.