Quando minha mãe via uma barata (Arte: Max) O mundo inteiro estancava quando minha mãe avistava uma barata. Podia ser na cozinha, no meio das manhãs ou ao cair da tarde, de repente despontavam as anteninhas como pequenos sismógrafos nervosos, iluminadas por gotículas do sol que se espraiava dia e noite por aquele vitrô, como se tivesse luz própria. A barata era cascuda, mas não teimosa: nas suas razões para nós baratinadas, analisava os passinhos com esmero e não titubeava se precisasse dar meia volta, volver. Eu estava à mesa, mastigando umas bolachas maisena apenas para não sucumbir de vez ao tédio de uma tarde repleta de lição de casa e nenhum argumento para trocar lápis, borracha e caderno pela rua: lá fora, tudo estava quieto, sem a algazarra costumeira dos jogos de futebol ou taco esperando por mim. A molecada também deveria estar em casa enrodilhada em lições intrincadas e biscoitos murchos. Coitados, tanto quanto eu. Pelo menos, eu ainda tinha a barata. Que, aliás, dera um pequeno passinho para um ser humano, mas um grande salto para as formigas, filosofei, já batizando de Neil a barata que se aproximara da mesa, bem ao meu pé. Minha mãe estava de costas, à pia; o laço do avental lhe dava um aspecto de pacote embrulhado para presente. Os braços de minha mãe se mexiam frenéticos, à moda do maestro diante da orquestra ou como se fosse um polvo galgando fundos de oceano. Nesse frenesi, as louças sumiam de um lado da pia e reapareciam do outro, magias de esponja e detergente, sob a trilha sonora monocórdia do chuá da água despencando da torneira, ralo abaixo. “Estou com fome”. Tomei um susto. A barata... “Minha barriguinha, aqui, ó, embaixo desses frisos das patas, está vazia”. Ela piscava e sorria diante do meu assombro. Como nem as baratas merecem passar fome, triturei um pedaço de bolacha maisena e espalhei as migalhas no chão à frente dela. A barata levantou as patas e mergulhou na maisena. “Você falou comigo...” , “Tá doido?”, ergueu a cabeça, revelando o rosto granulado de migalhas amareladas. “Baratas não falam”. Comeu até fartar-se. Enquanto palitava os dentes, provocou: “Se me ouve falar e entende, talvez você é que seja uma barata”. “Se eu fosse uma barata não estaria sentado em uma cadeira de gente...”, retruquei, com a força de todo o incômodo que sentia. Nessa época, nada sabia de kafkianices e dos labirintos da vida. A barata deu de ombros. Ajeitou o casco, limpou as antenas e quando iniciava um primeiro passo rumo a novas aventuras. “Uma barata!”. , Minha mãe avançou já com o chinelo em punho, o rosto transfigurado por mágoas atávicas contra os artrópodes, ali representados por aquela barata. Em três chineladas precisas não havia mais fome – tampouco barata. Mentalmente, agradeci a minha mãe por eliminar a raiz de meu incômodo e devolver a minha incontestável humanidade. Virei a página, vivi, cresci. Mas permaneceu uma centelha de desconforto: hoje adulto, há dias em que miro de relance o espelho e enxergo casco, patas e antenas. O susto dura apenas um segundo ou dois. Coincidência ou não, esses são os dias em que mais me desprendo de rumos, em que fico catando migalhas como se colecionasse as estrelas.