Então lhe veio à mente a ideia, já um tanto clichê, de que as janelas das casas são portas para a alma de seus moradores. Insinuou-se líquida, como os vazamentos silenciosos, ao observar o vizinho na varanda do prédio ao lado, dois andares abaixo, cuidando das plantas. A varanda era inteira um jardim, com folhas e galhos erguendo-se de xaxins, entrelaçando-se como se dessem as mãos — mãos verdes de muitos pequenos dedos das samambaias; mãos de dedos como ventosas das orelhas de Shrek; ou mãos de espinhos, tal os cactos, que, apesar de não terem desejos, é de sua natureza magoar o que tocam. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De costas, recurvado, o vizinho entregava-se a cada vaso como se todo o carinho do mundo ali estivesse contido. Terminava um, passava ao outro: revolvia a terra com as mãos, acariciava as folhas, calculava a quantidade precisa de água. Entre gestos e reverências, parecia até falar com as plantas. Dois andares acima, absorto, o homem se esqueceu de si: imaginou-se com os movimentos do vizinho, as sensações dele. Então eram suas mãos a remexer a terra úmida; a sentir, ao sabor das folhas, a maciez ou a aspereza, como se oferecidas pela vida. Certa vez, após o vizinho terminar os afazeres e desaparecer da varanda, o homem ficou só — ele e as plantas e o abismo entre os prédios. Olhou para as próprias mãos assombrado: secas e sujas de terra. Sentiu-se raízes, mas os pés, estranhamente, não tocavam o concreto do seu chão. Estava mais perto das nuvens, terra branca diáfana, onde se plantam sementes de sonho. Então abriu um sorriso largo: se fosse planta, se fosse gente, pouco lhe importava. É essa vida que brota, cresce, dá frutos e, apesar das distrações e dos dissabores, só nos impele a descansar nas estrelas, onde todo fardo é feito de luz.