(Adobe Stock) Ainda não foi criada a palavra, nem sequer a letra, para marcar um oriente nesse ferro em brasa ardente, no coração. A perda não é do que se teve, mas do que jamais se terá: o tempo, de novo. Esse tempo que escorre pelos dedos, nem se contado de trás pra frente, permite compreender. Pois é impossível descrever a inversão do mundo, para sempre. Invertido, o mundo não está apenas de cabeça para baixo ou refletido em um espelho. É como se, dentro dele, do mundo, tudo estivesse errado. São os mesmos lugares, as mesmas pessoas, os mesmos sabores, os mesmos sonhos: mas onde está o sentido das coisas, quando quem deveria ficar partiu? A saudade é sabre: sangra o amor. Ninguém sabe mais disso do que vocês. Eu? Nem sequer consigo alcançar uma franja dessa dor. Só posso me colocar ao lado, ler as entrelinhas de quem está vazio de palavra, de quem só na lágrima encontra voz. Que assim seja, não imagino possa ser de outra forma. Mas a vida levanta e dorme, a cada dia, a cada noite. Um dia... Sim, um dia: a vida haverá de pegá-los de novo com mão firme, novos rumos. Haverá, a vida, de tomá-los nos braços, acalentá-los como a mãe amorosa que também é. Não se apaga a dor — nem isso se deseja, reafirme-se —, mas, em algum dia, haverá uma aurora em que nada mais caberá, a não ser renascer. Um dia em que o convite da vida será irrecusável, porque ecoará a voz de quem partiu, não na mente, que tenta com mil razões acomodar o vazio, mas direto no coração. O novo sentido será o da caminhada, porque só assim haverá reconciliação com o tempo — que sempre encontra nossos passos. Os mesmos passos os levarão de volta ao amor, que já não parecerá ferido, mas apenas mudado de lugar. Desse lugar de agora, incerto, injusto, doído, para o lugar da eternidade — onde tudo coexiste, ainda que os olhos quase nada possam ver. Mas é de olhos fechados que se enxerga mais longe. E o sorriso do Pedro ainda estará lá. Para sempre.