(Freepik) Chega a vez de Jurandir. Ele pede dez médias, aponta as mais queimadas, aquelas com uma casquinha recurvada do lado, como se fosse uma onda congelada no mar. Pensa se leva também a broa sobre o balcão, bem à sua frente, polvilhada de farinha de milho amarelinha. A cara está boa. Hesita. Enfim, decide: a família é grande, mas não vai precisar, as médias dão conta do almoço. Será parmegiana, sempre há quem goste de limpar o molho do prato, mas os dez pães são mais do que suficientes. Pega o saco, servir bem para servir sempre, agradece a balconista, dirige-se ao caixa. É débito. Pronto, está pago. Jurandir passa a roleta, sai à rua. Na calçada, em seu caminho, está um homem maltrapilho, cabelos desgrenhados, barba por fazer. “Me dá um pão?”. Jurandir aperta o passo, ignora. Sente o olhar do homem queimar-lhe às costas. Entra em casa. Os primos já chegaram, os pais já chegaram, os sogros acabam de tocar a campainha. Balbúrdia, falatório, como vai, tudo bem. Na cozinha, a mulher arruma a louça. Jurandir deixa os pães na bancada da copa. Nem bem se senta à mesa, alguém lhe enche o copo. Cerveja, a espuma sobe, dois dedos de colarinho. Recebe um tapinha nas costas, você está bem, está forte, está bonito. Mas Jurandir está longe, mal ouve, mal vê. A travessa da parmegiana é colocada por quatro mãos no centro da mesa. Fumegante, explodem bolhinhas de tomate no molho. À volta de Jurandir batem palmas, assobiam, fazem festa. Ele observa: todos gordos, rosados, chistosos. Alguém pega o prato dele, preenche: arroz, bife, muçarela, molho, vermelho como sangue. Ele se remexe na cadeira. Pega o garfo, a faca, faz que come, não come. “Cadê o guaraná?”, pergunta de repente. “Não tem”, alguém responde. Jurandir arrasta a cadeira e se levanta. Antes que alguém pudesse protestar, já estava na rua. Corre à padaria. De longe, avista a calçada. Não há ninguém. Dá a volta, anda por ali, procura: ninguém. Volta para casa, um amargor no peito, um desajuste. Como se o mundo fosse menor e Jurandir nele não coubesse. A mulher pergunta o que ele tem, está esquisito, Jurandir desconversa. Naquela noite, rolou na cama até de madrugada. Dormiu: se teve sonhos, não lembra. De manhã, levantou, trocou de roupa e arrastou-se à padaria: foi buscar o pão para o café. O mesmo balcão, a mesma atendente do dia anterior. Pede três médias. Paga, sai. Então, na calçada, dá de cara com ele: o maltrapilho. “Me dá um pão?”. Ele entrega o pacote todo. O maltrapilho começa a comer. Mastiga devagar, sem desviar os olhos de Jurandir. Ao terminar, o maltrapilho diz: “Há tantas fomes por aí. Que a sua tenha sido aplacada”. Virou-se e foi embora. Jurandir ficou olhando. Ao chegar na esquina, abriram-se duas imensas asas nas costas dele, que voou e sumiu em um raio de luz, por entre a névoa da manhã.