Parque de diversões (Arte: Max) Em um vale, por entre largos morros, a cidade acomodava-se como um cálido manto de casas. O relógio da praça, em frente à matriz, badalava os dias e noites, indicava aos habitantes as horas de acordar, de trabalhar, de comer e de dormir. Pelas ruas estreitas e pacatas, em cujas árvores frondosas os pássaros teciam ninhos, sob a bênção do céu azul sem um risco, os habitantes cumprimentavam-se pelo nome em sorrisos inoxidáveis ao se cruzarem nas calçadas. A cada morte, havia um nascimento, de tal modo que jamais alguém nascia ou morria. De segunda a sexta-feira bem cedo, os cidadãos já estavam a postos. As crianças trombavam-se, de rabo de cavalo as meninas, de cabelo liso para o lado os meninos, todos iguais e uniformizados a caminho da escola. Os adultos, em roupas bem passadas e hálito refrescante se dirigiam a mais um ciclo feliz e produtivo na fábrica de correntes e cadeados, arrimo econômico da cidadezinha, cuja produção era exportada mundo afora, graças à inequívoca qualidade em cercear, encarcerar e prender. Aos domingos, tomavam sorvete na praça os namorados, de mãos dadas. Famílias abraçadas refrescavam-se no lago ou acomodavam-se sobre toalhas axadrezadas para um piquenique no gramado do parque. Amigos confabulavam em verso e prosa entre sorvetes, lagos e piqueniques, sob um sol amarelinho que suspirava, cândido, ao assistir tudo lá de cima. Felizes, os habitantes espalhavam-se pelo perímetro urbano, que sentiam como a extensão natural de seus corpos e vidas. Só não tinham o hábito de frequentar a estação de trem: assim como os vivos jamais morriam, pois só os mortos são eternos, ninguém nunca chegava ou partia da cidade. Até que um dia, de trás do morro, pularam pelos ares sons com ritmos de balbúrdia e escárnio, ecoaram pelo vale e penetraram as ruas em saracoteios de uma alegria sinuosa, febril. Logo, despontou uma caravana com caminhões desconjuntados, trailers antigos e uma fanfarra de gentes de cabelos desgrenhados, roupas coloridas e lábios púrpuras demais, de batom ou do sangue correndo mais rápido nas veias. Chegaram ao único terreno da cidade, uma ampla área ao lado da estação. Abriram os caminhões, retiraram ripas de madeira, placas e vigas de metal, e foram com destreza armando as peças de um imenso quebra-cabeças. Sem demora, um carro de som esquálido percorreu as ruas anunciando para aquela noite a estreia do “maior, mais maravilhoso, inacreditável parque de diversões dos quatro cantos do mundo”. Curiosos, os habitantes acorreram. Extasiaram-se com as luzes de pequenas lâmpadas incandescentes, que pareciam grandes vaga-lumes pendentes de fios quase invisíveis. Havia muitas atrações. Na sala dos espelhos, os habitantes se viram menores, maiores, esticados, deformados e se confundiam uns com os outros, de tal forma que os velhos remoçavam e os novos envelheciam. As crianças se lambuzavam de maçã do amor e algodão doce até desabarem no chão rindo, de tanto açúcar. No estande de tiro, as espingardas de rolha não davam conta da voracidade dos habitantes por ursos de pelúcia, derrubados sem dó ou clemência das prateleiras a cada estampido. No trem-fantasma, diante das múmias e dos vampiros, o susto impossível era não ter susto, o que ocorria pela décima visita, em que se tentava domar o coração para que não pulasse tanto no peito ao sentir um estranho medo que se misturava à alegria. Ainda na fila da montanha-russa, os habitantes amargavam um delicioso frio na barriga, que os fazia temer e, ao mesmo tempo, entregar-se ao próprio destino, brando ou cruel, mas para sempre escondido na dobra da próxima esquina. Era madrugada quando as últimas pessoas deixaram o parque. De manhã, pela primeira vez na história, as ruas estavam vazias: os habitantes perceberam que a fábrica de correntes e cadeados não fazia mais sentido.