[[legacy_image_357287]] Dia desses encontrei na rua meu bom amigo Anacleto, que não via há anos. Com a devida atualização do tempo, estava igualzinho à época da escola, mas em uma versão mais bem acabada: se desde sempre fora barrigudo, agora, pelo menos, guarda a pança sob uma camisa cujo preço tem no mínimo três dígitos, sendo o primeiro deles de cinco pra cima. Se o cabelo grisalho está ralo dos lados, com entradas dignas de caminhões-cegonha, ao menos é mantido impecavelmente brilhante e arrumado, ao contrário da vasta cabeleira negra de então, postada na cabeça como as simulações de computador dos furacões que castigam o Caribe. Do pé, saiu o kichute surrado, de cadarço amarrado dando voltas pela sola, e entrou um Gucci tão lustroso que servia de espelho pra cachorro. A pele branca como a porcelana de um vampiro de outrora está corada no matiz da melhor saúde e vitalidade. Após os inevitáveis cumprimentos e amabilidades — “como você está bem”, “você também não fica atrás”, “o tempo é implacável, mas esqueceu de você”, “e você? o calendário virou as costas...” — passamos a assuntos mais concretos, como o inevitável “o que você anda fazendo?”, como se “fazer’ definisse a vida. Confesso que ao vê-lo naquela estica me deu uma pontada de inveja, pois ele deveria estar “fazendo” bem mais e melhor do que eu. Tentei fugir da pergunta, mas quando as amabilidades iam escorrendo ralo abaixo no silêncio, e antes do constrangimento de permanecer ali sem nada dizer, sabendo que despedir-se assim depois de tanto tempo seria no mínimo estranho, lancei a pergunta: “Mas o que você anda fazendo?”. “Nada”, respondeu, despreocupado. “Como, nada?”. “Você se refere a trabalho, não?”. “Isso”. “Então: nada”. “Mas...”. Ele abriu um sorrisão de dentes tão límpidos quanto o brilho dos sapatos. “Você deve estar se perguntando: ‘como é possível ele se vestir de maneira tão distinta se não faz nada?’”. De fato, estava e confirmei a ele. “Pois vou contar o segredo”. Eu era todo ouvidos. Ele pigarreou: “As coisas vêm até mim”. Devo ter estampado uma careta medonha: “Como assim?”. Ele sorriu ainda mais largo: “É só não se preocupar. As coisas vêm”. “As coisas?”. “Isso. As coisas. Veja este sapato: um dia, de chinelos na rua, pensei que precisava de um calçado mais formoso para longas e charmosas caminhadas, mas dei de ombros. Duas quadras adiante, escuto uma gritaria, um homem sai correndo de uma loja de grife, uma mulher corre atrás: ‘Não me apareça mais aqui!’ e voa um par de sapatos na minha direção. Estes”, e aponta para os pés. Fiquei boquiaberto. Mas ele continuou: “E esta camisa, então?”, puxou a gola. “Nem te conto”. “Conta!”. “Tá bom. Um dia, eu estava em casa, admirando meus sapatos novos, pensei ‘oras... uma camisa que ornasse cairia bem...’, mas dei de ombros. Naquela tarde, fui ajudar um amigo a separar os pertences do pai recém-falecido. Havia três camisas dessa ainda dentro das caixas. Com os olhos marejados, agradecido, meu amigo me ofereceu. As três”. Ele prosseguiu: assim foi com o carro importado, que pensou ser interessante, mas deu de ombros; com a casa na praia, e deu de ombros; e o helicóptero? Deu de ombros... Então, ele virou pra mim: “E você, o que anda fazendo?”. No dia seguinte, cheguei no escritório, assinei a demissão, joguei na mesa do chefe e saí porta afora. Dando de ombros, é claro.