O livro de cada um (Arte: Max) Os melhores livros são aqueles que, mesmo após serem fechados ao fim da última página, seguem por outras trilhas ecoando suas histórias, de modo que jamais acabam, apenas transformam-se em novas matérias, outras densidades. O Caçador Chegou Tarde (Maralto Edições), do curitibano Luiz Henrique Pellanda, é, para o leitor que sou, a mais recente obra a entrar nesse rol. Sem cerimônia ou pedido de licença, os 62 contos, alguns resumidos a um par de linhas, sentaram-se à mesa de um inusitado banquete em que, à medida que se come, mais fome se tem. Nesse banquete cabem muitas vidas, tantas quantas pode viver uma alma no mesmo corpo. Eis o milagre: enquanto o corpo se degenera apesar do alimento, é por este que a alma se depura e multiplica-se, a partir dos caminhos de suas descobertas. O tempero é o lirismo das letras dispostas em harmonia, o sabor é a semente da ideia que brota ao encantar ou desestabilizar — ou, como está na moda, ‘tirar da zona de conforto’. Nesse sentido, o caçador não chegou tarde. Ao contrário, foi certeiro: durante a leitura, me vi eu mesmo um livro. Aliás, vi um livro em cada um dos oito bilhões de seres humanos que andam pelo mundo. Meu prefácio é a vida que se desenrolou antes de mim. Meu pai e minha mãe, os pais e mães antes deles, os avós meus, de onde vieram, as coincidências e acidentes que um dia colocaram esses dois seres frente a frente para moldar o que seria a minha existência, o livro em branco que todo ser humano é ao berrar à luz pela primeira vez. Vai-se, então, escrevendo; obra composta a muitas mãos, feitas dos sonhos, de devaneios e dos planos de concretude, e das ilusões e desilusões, irmãs siamesas, Jano de duas faces, onde uma está, a outra pode até tardar, mas um dia haverá de soprar à porta e derrubar a casa — usualmente, de palha —, como o lobo mau da história. A obra de cada um é escrita nas perdas e nos ganhos, contabilidade fria marcada a ferro e fogo nos balanços do coração. Haverá o dia de sol na praia, com o picolé derretendo pela boca, os pingos alvejando a sunga da criança que desconhece máculas e desperdícios. Haverá a apreensão do primeiro dia de aula, o sabor amargo do adeus à mãe na fronteira entre dois universos que é a porta da escola, de onde se acaba arrastado em um mar de uniformes no qual se é apenas uma gota. Haverá a briga na rua em que se perde um dente, o tombo da bicicleta em que se parte o joelho, o deleite de chupar a manga gelada na sombra de uma tarde de verão. À medida que as páginas são viradas, a história vai crescendo em complexidade, tecendo desalinhos, vai apresentando encruzilhadas. Será preciso olhar nas páginas anteriores para saber o rumo a seguir na trama. Haverá o dia que será imposição: médico ou advogado, quando o desejo é tocar violão em noites de lua cheia ou viajar para o Nepal com uma mochila e um cantil. Haverá o momento em que um passo mal dado pode empurrar alguém ao abismo. Mas haverá a possibilidade de um sorriso no meio da tarde salvar uma vida. Haverá, ainda, o dia em que a rosa do jardim daquela casa em que se passa na frente estará mais perfumada. Em outra ocasião, a rosa já terá perdido o frescor e, por fim, as pétalas — será apenas memória, como as madeleines de Proust. Então teremos um livro dentro do livro, e me assalta a dúvida: o que é real, o que é ficção? Se ultimamente me olho no espelho, vejo uma imagem fictícia: onde estará aquele moço de 20 anos? O que me dá a instigante ideia de pular as páginas, como o barco que afronta as ondas ao ser lançado no mar, deixar escrito um final, retornar à margem de onde estou, e continuar a história como se nada tivesse acontecido. Um final muito singelo: o de que esse livro de mim mesmo viva eterno na boa lembrança de histórias que sejam escritas a partir da minha.