O menino, 10 anos, escancara a porta de casa como se quisesse assustar o mundo. Pula da soleira os cinco degraus que o separam da rua. Na calçada, confere a pipa acomodada embaixo do braço com esmero, tal um tesouro, pronta para estrear em um céu tão azul quanto a vida, nessa idade, é mistério. Corre ao campinho, logo ali do outro lado, onde não há fios nem amarras, apenas essa liberdade possível somente quando dela nem se suspeita. O menino desenrola a linha, solta a pipa pelo ar. A brisa vira vento, está a favor. A rabiola evolui na dança que a faz subir aos ares. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na terra os pés descalços, o menino comanda a pipa — ou papagaio, como dizia seu pai; onde estará, tantos anos depois? Os olhos cravados no céu desviam do sol, mas não perdem um movimento da pipa, agora um pontinho cintilante na imensidão. Lá está a Lua. Só depende de si, do seu movimento, da sua destreza: a pipa, então, encobre a Lua. Sim, tão pequena, some com a Lua, tão grande. O menino está feliz — o menino é feliz. Expande-se do corpo: é como se estivesse flutuando aos caprichos do vento — aliás, como serão os ventos lá tão no em cima? Gritam, sussurram ou sopram calados na orelha da gente? O menino não sabe, nem pensa: serão os ventos o que têm de ser. Tampouco suspeita o que fará o tempo com esses pés descalços, marrons do barro do campo, ou desse barro, dizem, de onde tudo veio: um dia os pés estarão encarcerados, sapatos e meia, metrô apertado, o desencanto das contas a pagar, o errático balancete da alma; os planos murchos, desbotados à força de outros ventos que o arrastarão sem dó, às vezes sem rumo, outras a rumos e caminhos com que jamais sonhou, e dos seus sonhos, feito um peso sem sentido, irá livrar-se até sobrar pouco, muito pouco, além da tristeza de conformar-se com o que foi, sem nunca imaginar o que poderia ter sido. Quem sabe ficará a centelha desse dia já tão distante, quando empinou uma pipa, em um céu tão azul, mas tão azul, que por uma tarde, sem saber, João abraçou a vida como se fosse eterno. *Ronaldo Abreu Vaio. Jornalista, editor de Galeria