(FreePik) O sol até se levanta, mas o dia só nasce quando o café está pronto. Ou sou eu quem renasce: não das cinzas, mas do pó no coador. O ritual de cada manhã começa com a água no fogo: as borbulhas da fervura são o verdadeiro despertador, passagem para a alegria faceira, a animação nos músculos, a mente afiada. Mas, calma: será apenas depois do coador unir o que tem de unir e separar aquilo que jamais poderia se juntar. Nesse instante mágico, das misteriosas alquimias da cozinha, o que resta? Além da paciência de esperar — que nem é tão difícil assim, com o corpo ainda entorpecido —, resta deixar a alma fugir pelos poros, largar os olhos dormentes lá na esquina ou pelos nichos escondidos no peito. Pois que seja na esquina: pela janela basculante, vejo lá o homem e seu cachorro. Um amigo certa vez disse que os seres humanos acabam tomando a forma de seus animais de estimação. Se for assim, já devo estar com longos bigodes afiados, olhos oblíquos, orelhas pontudas e uma gorda preguiça do tamanho dos dias. Mas voltando ao homem e ao cachorro: nesse caso, acho que meu amigo tem razão. O homem caminha com a mesma cadência do cão — um em quatro, o outro em duas patas. De tal forma que já não sei se o homem leva o cachorro pela coleira ou se o cão conduz o homem. Mas pelo que ocorre no Irã... O líquido escoa para a garrafa, logo o café virá me resgatar dessas ideias doidas. Enquanto espera, a alma zonza escorrega pela cozinha. Descobre um universo por entre os azulejos, no vão dos pisos. Foge pelos cantos, alma acossada por tantas bombas e absurdos. E se o mundo acabar? Talvez já esteja nos acréscimos, mas saberemos só em breve, a alma pensa. É triste? É. Mas a própria alma descafeinada me conforta: a cada mundo encerrado, nasce outro. Todo dia. Mas nem sempre nos pertencem esses novos mundos feitos de chegadas e partidas. Estaria eu ali? Em qual mundo? Quais as opções? Ninguém sabe, vai-se vivendo. Eis o café: pronto, sem açúcar. Fecho a garrafa. Verto na xícara, quase transborda na pia. Amansará a alma, essa generosa dose para trazer de volta a vida real. Levo a xícara aos lábios, provo: até que está bom. Coço a cabeça: mas o que será isso de vida real? Queimo lábios e garganta em uma trêmula golada: o café não sabe; a alma já se cala. Bom dia.