(Imagem produzida por IA) O som despertou dona Amélia antes do sol. Um silvo baixo, agudo, lamentoso, fez com que ela abrisse os olhos antes dos raios de luz que a cada manhã tocam o pé da cama. Dona Amélia ergueu a cabeça do travesseiro, apurou o ouvido. Parecia vir da sala. Dona Amélia apoia os cotovelos no colchão, ergue-se com dificuldade. Levanta, calça os chinelos. Tateia, sente os móveis, reconhece-os na penumbra do fim de madrugada. Na sala, o silêncio. O estalar da mobília. Até que ouve um chiado doído. Próximo, longe: parece ambos. No escuro, dona Amélia aperta a vista, na tentativa de distinguir a origem do som. De novo, o lamento. Então percebe. Vai à porta da rua. Abre. Depara-se com dois grandes redondos olhos azuis, orelhas compridas, desproporcionais ao rosto preto ainda pequeno, delicado. É um gato. Um filhote mirrado, sentado no capacho sobre as patinhas de trás. Olha curioso, diz algo a dona Amélia em sua língua de miados. Ela sorri, entende. Faz um gesto para o gatinho esperar e entra em casa. Na cozinha, abre armários, encontra uma lata de atum, pega um pires. Põe na frente do gatinho. Ele se enterra no pires. Minutos depois, ergue o rosto, lambe os beiços, o nariz brilha atum. Mia feliz. Dona Amélia leva o pires à cozinha, dizendo ao gato que, já que ele havia chegado à sua porta, quem sabe não seria ali o seu novo lar? Mas quando ela se volta para pegá-lo, o gato havia sumido. Dona Amélia olha a rua vazia, procura: nem sinal. Suspira, fecha a porta. No corredor, para em frente às fotos. Há quanto tempo Marcelo não vem. Às vezes atende o telefone: ele deve estar tão ocupado. A netinha está grande, esperta. Oito anos. Como o tempo passa. O tempo... será ele que passa? Ou nós passamos, ele fica, observando? Caçoa da gente. Do tanto que se tenta controlá-lo em vão. Dona Amélia acaricia a moldura: não há pó. Pudera: ela está sempre por ali, querendo abraçar aquele sorriso de vinte anos antes. Deseja que Marcelo ainda consiga sorrir como na foto. Sim, ele deve sorrir como na foto, decide. E se sente feliz. Na madrugada seguinte, dona Amélia salta da cama: o miado, o gato! O coração aos pulos, abre a porta da rua: ali está ele. Tão pequeno, tão frágil. De novo o pires, o atum. Depois de comer, o gatinho miou para dona Amélia e saiu correndo até desaparecer no terreno em frente à casa. Assim foi na noite seguinte. E em muitas outras: o gatinho voltava toda noite. Tanto que dona Amélia comprou ração — “a da melhor qualidade!” —, um potinho e um brinquedo. Ela mudou hábitos, passou a levantar de madrugada e deixar tudo preparado, esperando à porta de casa. Certa noite, porém, o gatinho não veio. Dona Amélia esperou até de manhã. Desistiu, entrou em casa. Passou o dia procurando a vontade de vivê-lo. Na noite seguinte, o gato também não apareceu. Nem na outra: o gato não veio nunca mais. Dona Amélia pensou: ele deve estar tão ocupado. Pena não ter um retrato para pendurar na parede, acariciar a moldura e imaginar que tudo está bem.