(Gerado por IA) Há dias em que me acordo pássaro. No desejo de voar, a cama se torna peso, contraste ao corpo revestido de leveza. Não nascem de cabeça fraca nem de sonho esses afazeres: é do coração o pulsar diferente. Se abro a janela, luto para conter-me nos limites do quarto, em resistência ao chamamento do céu que embaralha infinitos. Na rua, as gentes passam, de pés acorrentados ao chão. Cravo os dedos no parapeito: flutuo um lençol ao vento à revelia de mim. Estou assim, tênue em veias e artérias, repleto de vazios fulgurantes. Me atrai lá embaixo a cena do vizinho saindo do prédio. Penso em chamá-lo para testemunhar meu milagre, meu riso. Contenho-me: percebo que ele vai pesado em seu caminho, cabisbaixo. Rosto cerrado, remexe os lábios sem voz, fala por dentro de si com alguém imaginário ou consigo mesmo. Diáfano, sinto-me sob a pele um pouco ele, sorvo um tanto de sua tristeza. Mas ser pássaro é isso: compadecer-se da falta de asas. Como quem voa alcança mais longe, soltei-me do parapeito e deixei-me ir pela janela ao encontro do vizinho. Planei ao lado dele: “Bom dia”. Sem reduzir o passo, sem me olhar direito, devolveu o cumprimento na indiferença das formalidades. Disse: “O que te preocupa?”. Ele parou, ergueu a cabeça e me observou vagar um barco ancorado nos ares. “O que você está fazendo aí em cima?”, perguntou, apenas. “Eu sou pássaro”, respondi. “Mas você não tem bico, você não tem penas”. “Tenho o voo”. “Um avião também voa”. “Voa, mas não sabe aonde vai”. Ele disse: “Eu também não sei aonde vou”. “Sorte você não ser um avião”, sorri. Mirou-me: “O que te importa em mim?”. “A possibilidade”. “Possibilidade de quê?”. “Do voo”. Nada disse. Virou-se e seguiu. À medida que se afastava pela calçada, a terra foi-se encolhendo sob seus pés. Os passos esvoaçaram pelas esquinas, por entre os prédios, até ele virar-se em horizonte. Fiquei por ali, planando nuvens macias, feliz pela nova esperança espraiando-se no mundo.