(Imagem ilustrativa/Pexels) A julgar pelas redes sociais, o sorriso vai dominar o mundo. A alegria se espraia nos brindes à beira-mar, nas festas glamourosas, nas formaturas de canudo na mão, nas promessas de casamentos à vista, nos próprios casamentos de grinalda e champanhe, nas fotos e nos vídeos das viagens sempre perfeitas: a cada clique, somos soterrados pela alegria. Nesse império sufocante da animação, como fica a tristeza? Não se iluda, cedo ou tarde, ela virá. Ainda bem: sem ela, seríamos apenas metades da incompletude que já carregamos de ofício, como seres humanos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas virá a seu modo: a tristeza é tímida. Ao contrário da alegria, que se anuncia dobrando as esquinas do coração com bandas e fanfarras, a tristeza chega de mansinho e se instala sorrateira, como quem nas noites frias se aninha nos cobertores para se acomodar no sofá: sabe-se que há alguém ali, mas pouco se vê de quem seja. Ao contrário da alegria, que só justifica a existência à sombra de grandes conquistas e maravilhas, a tristeza não precisa de razões para ser: ela é sua própria razão. Até pode ter suas motivações, mas não precisa delas: vem porque quer vir, seja em céu de chumbo ou até em céu do mais belo azul, causando surpresa aos que esperavam a alegria sob tal céu auspicioso. É isso: a tristeza, às vezes, nos surpreende. A alegria apenas nos adula. Ao contrário da alegria, que não cabe em si e transborda, a tristeza sabe o seu lugar e a proporção do seu tamanho: jamais será de menos, mas quando for demais, suspeita-se, é apenas alguma alegria desorientada nos pregando uma peça. Porque a alegria é inconsequente, a tristeza, revelação. A alegria é pirotécnica, a tristeza, visceral. A alegria nos gasta, a tristeza transforma. A tristeza é profunda, ainda que feita de mar batendo nos tornozelos; na alegria, afoga-se no raso. No verão, a alegria é a cigarra; a tristeza também o é, mas reconciliada com a formiga: há canto e há trabalho, o presente de mãos dadas com o futuro. Precisamos com urgência aprender a ser tristes. Somente ao exercer de corpo e alma a tristeza, conseguiremos de fato viver plenamente as alegrias. Porque a alegria deve ser o sol, a tristeza, a lua. E a nossa verdade jamais será plena sem o dia e a noite, de mãos dadas, em cada olhar e coração.