(Imagem gerada por IA) Dia desses, estava voltando para casa do mercado, carregado de sacolas. No sentido oposto na calçada, vinha um casal. Ela empurrava um carrinho, o bebê mexendo as perninhas lá dentro; ele dava a mão a uma criança maior, um apêndice dele, era praticamente arrastada. De longe, a cena lembrava uma trupe de saltimbancos em alguma obscura estrada de outro tempo, outro lugar. Quando cruzaram comigo, ouvi o rapaz começar a frase, dirigindo-se à moça: “O teu maior erro é...”. Tal os bondinhos do Monte Serrat, eles e eu seguimos rumos opostos e o vento não foi forte o suficiente para me trazer nos braços o resto da frase. Veria-os de novo? Improvável. Cheguei em casa, livrei-me do fardo das sacolas sobre a mesa da cozinha. Fui à janela: brisa e nuvens de chuva; lá embaixo, buzinas e motores. À minha frente, um pardal em volteios e mergulhos no céu. Uma serra elétrica surgiu, empesteando de barulho os sons do ar. Mas qual seria o maior erro da moça? E como uma coisa leva à outra: qual seria o meu maior erro? Seria ter ido dormir sem escovar os dentes? Deixado a janela aberta na noite da tempestade? Ter ficado calado quando deveria falar? Ter falado demais quando deveria calar? Ter seguido o caminho sem estender a mão a quem suplicava com os olhos? Ter me agarrado ao remédio quando não havia mais cura ou ter acreditado que não havia mais cura? Ter alimentado esperanças com a minha falta de coragem? Ter salgado demais o feijão? Ter sumido no mundo por achar que não me notariam a falta? Ter permanecido por crer que não se poderia viver sem mim? Ter ou não ter, eis meu maior erro? Ou meu maior erro terá sido o desenho de um sol amarelo, numa folha qualquer? Ouvi tudo o que podia de Toquinho cantando a sua Aquarela? As lágrimas que a canção me traz estão acima dos erros e dos acertos: a astronave que não se pilota, nem tem hora de chegar, muda nossa vida e nos convida a viver enquanto há. Pois chegará o tempo em que a aquarela descolorirá e o maior erro, nascendo das dúvidas na jornada, será tão pequeno, migalha, fagulha, até do erro restar somente a ternura. Pois o que permanece, de bom e de mau, é apenas nostalgia, quando tudo já for passado.