Acabaram as eleições e a vida continua. Ainda bem que assim seja, sempre. Mas às vezes parece que o mundo é uma grande pesquisa eleitoral, e o ser humano vive se equilibrando na margem de erro. Por exemplo: outro dia, um cocô de pomba caiu no meu ombro direito. Na margem de erro, poderia tanto ter caído na calçada ao meu lado, quanto na minha cabeça. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na margem de erro, o café fica muito doce — de amarga basta a vida, dizia minha avó, a quem, vejam só, não existia margem de erro: a ela era tudo preto no branco. Mas até o preto no branco, na fronteira entre ambos, terá um milímetro toque de cinza. Na margem de erro, a banana estará verde na hora da sobremesa; o leite virou coalhada, a calda do pudim queimou, e o chá de gengibre esquentou demais, chiou, verteu no fogão. Na margem de erro, o cão mordeu o próprio rabo, o pedido feito à estrela cadente não se concretizou e o lado da manteiga no pão caiu virado pra cima (a Lei de Murphy, na margem de erro). Mas a margem de erro fica suspensa naquele instante da dúvida, em que o apaixonado, com um frio na barriga, hesita em mandar ou não a mensagem à amada. Dura só um instante, e o que ele escolher já será história. Na margem de erro: eles terão três filhos, com dois para mais ou para menos. Choverá hoje, vaticina a previsão do tempo. Na margem de erro, pode ser ontem ou amanhã. De qualquer forma, foi na margem de erro que eu abri a porta de casa pingando dos pés à cabeça. Como também foi pela margem de erro que a cerveja estava quente, e a pizza, gelada. E eis que o colesterol bom está bom, e o ruim também está bom — tudo na margem de erro. Na margem de erro, eu vejo os aviões e sonho com as gaivotas; eu dou risada na tristeza e choro na alegria; eu quase tomo um tombo e quase me levanto; eu sujo de lama a barra da calça e dou bom dia a quem passa ao meu lado na calçada. Na margem de erro, nem vampiro nem lobisomem: o terror é tão subjetivo. Na margem de erro, ninguém que tenha fome poderá não saciá-la; ninguém que não tenha fome poderá saciá-la. Confuso? Que a fome seja o erro, sem margem para mais ou para menos. Pois é, as eleições acabaram. Mas o mundo é mesmo essa pesquisa eleitoral sem eira nem beira: tem dias, o ser humano é a própria margem de erro; em outros, é só pela margem de erro que a gente consegue acertar.