Laços () Se ao amor coubesse descrição, forma, passo, riso ou carne, o amor seria aquele casal. Desde pequeno, minha vida transcorreu quase toda entre os canais 1 e 2 — ao atento leitor de Santos, está tudo explicado nessa simples menção geográfica: ele já sabe quem sou, aonde vou, como me expresso; pode até sentir a família que tive, com ou sem pai, com ou sem mãe, com ou sem irmãos, pouco importa: basta saber dos canais para intuir algumas rotinas e alguns costumes meus. Mas esta crônica não é sobre as agruras e alegrias de um então rapaz que, por destino ou fatalidade, caiu do bico da cegonha no berço onde foi acolhido. A crônica é uma homenagem àquele casal. Um casal do Canal 1. Desconheço o nome dele e o dela, onde moravam, o que faziam. Ignoro de onde vieram ou quem fossem. Porém, durante pelo menos 25 anos, eu os vi passeando para cima e para baixo na Avenida Pinheiro Machado (Canal 1) ou em ruas adjacentes. Sempre de mãos dadas. Teria eu no máximo uns 12 anos quando os notei pela primeira vez. Havia sido mandado por minha mãe em uma missão especial à padaria para comprar mortadela e fermento, com a expressa recomendação de não aceitar balas de troco, quando o casal surgiu na calçada do outro lado da Rua Carlos Gomes. As mãos deles, entrelaçadas, firmes uma na outra, me despertaram a atenção. Parei e fiquei olhando. Ele era baixo, moreno, cabelo curto, ombros tímidos, cujo tronco se alargava em uma generosa circunferência no abdômen. Ela era bem magra, loira, e também era baixa, mas usava sapatos de salto plataforma — uma marca dela — que a deixavam mais alta do que ele. Havia algo mágico nos sorrisos discretos, mas constantes, de ambos, e nos olhares cúmplices que trocavam em seu caminhar lento, despreocupado, feliz. Fui à padaria, voltei, recebi uma bronca de minha mãe por chegar com o bolso recheado de balas, e esqueci o casal. Porém, tempos depois, me deparei novamente com eles no Canal 1. E, ao longo dos anos, entre dias ou meses, sem periodicidade certa, quando menos esperava, eu os via indo ou vindo, em direção à praia, em direção à vida. A circunferência abdominal dele foi crescendo, as rugas em seus rostos foram se multiplicando, os passos foram ficando mais curtos, porém, eles jamais perderam aquele brilho que não emanava dos olhos, mas do simples gosto de existir um para o outro. Certa vez, eu já tinha mais de trinta anos, noto-os ao longe, na mesma calçada que eu, em sentido contrário. Eles se aproximam, penso em pará-los, contar de todo aquele tempo que os notava, perguntar quem eram. Quando estamos lado a lado, a timidez me domina, abro apenas um sorriso, cumprimento com a cabeça; eles retribuem, passam por mim, seguem. Perdi para sempre a minha chance. A vida me pegou pela mão, às vezes de forma carinhosa, outras bruscamente; puxou com força, me levou pelos ares e mares, o Canal 1 de repente já desembocava em outras praias, outros rumos. Fui e voltei, algumas vezes sem sair do lugar. Mais anos se passaram. Um dia, vi uma mulher magra, loira, em sapatos de salto plataforma, pelo Canal 1. Andava com dificuldade e estava só. Em nada pensei. Preferi me apegar com força à imagem dos dois, de mãos dadas, em seu caminhar que, para mim, já era eterno desde sempre.