Há os que gostam dos dezembros: a longa barba dos papais noeis, o olhar bonachão derretendo ao sol tropical; os fogos e os artifícios de pular sete ondas, da semente de romã, os dedos cruzados pelo Ano-Bom: que seja um bom ano. Há quem prefira os agostos de saci e curupira, as portas batendo na vizinhança – sempre na vizinhança – pelas artimanhas e enroscos do vento noroeste. Há aqueles que amam as continências dos setembros das independências e da hipnose dos cupins à volta das luminárias. E se em fevereiro tem Carnaval, há quem na expectativa do mês rasgue a fantasia o ano todo. E maio? Das mães e das noivas, e do céu mais azul do que o azul. Ah, não nos esqueçamos: também há os outubros de fé à padroeira, de celebrar a vida das crianças, de todas elas, e das bruxas que nos chegaram falando outra língua, dissimuladas, escondendo seus intentos. Respeito a todos, mas gosto mesmo é de junho. Mês em que o cupido esfrega as mãos e afia as setas. Aliás, hoje é o dia dos namorados, e amanhã o de sonhar com o casamento. Mas Santo Antônio abre alas, deixa São João chegar com quentão, pipoca e paçoca, e se a ponte quebrou, a gente constrói outra, afinal, sem canjica ninguém fica. Olha a cobra, nem sempre é mentira, há tantas por aí – vide a política. O cavalheiro cumprimenta a dama, o caminho é o da roça: eis São Pedro, a pesca farta, esperança de melhores dias, fechando o mês com a chave do céu. Este ano ainda é junho de Copa. E amanhã é dia de torcer pelo Brasil. Ou todo dia é dia de torcer pelo Brasil? Pois que vença o melhor – o Brasil melhor. Tudo isso é junho, mas junho é muito mais. O que cada palavra traduz de cor, de aroma, de sabor, esconde, guarda, transforma outras cores, sabores, aromas. Pois junho é sobretudo um lugar que se habita no tempo. A gente entra e sai de junho – e até pode ser em abril. Esse passeio é eterno, desde a criança que se foi nas quermesses e quadrilhas, no jogo de bafo das figurinhas de outras copas, aquela copa específica em que o mundo, de repente, tornou-se outro – ou nossos olhos o enxergaram de outro jeito. Um jeito que inaugura a vida, como a vida há de ser, em todos os outros junhos da nossa existência. *Jornalista, editor de Galeria