Calçada na Avenida Washington Luís, sentido praia, em frente à Rua Machado de Assis, abril de 2026. Sob três árvores de copas largas entrelaçadas no céu, pontos arroxeados mancham o cimento da rua: marcas de jambolões espatifados, pisoteados, esvaídos. Não há carros estacionados, escaparam do bombardeio evidente. A calçada, de um cinza escuro e triste, lembra a pele de um cão dálmata. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Sobrado na Rua 9 de Julho, Marapé, próximo ao Canal 1, em algum momento de 1980. Sem saber dos jambolões, lá estava ele no quintal, os olhos grandes engolindo o mundo, o rabo curto irrequieto, antena de novidades: o Tucson. Dálmata, com alguns meses de vida, batizado na esteira do pai, chamado Dallas. Eu era tão menor que minha pequenez era maior do que a dele. Ele me encarava querendo adivinhar o que houvesse em mim de vontade para guiá-lo. Eu retribuía o olhar, querendo descobrir o que de humano nele houvesse por trás do cão. Nada havia. Ainda bem: quanto mais se distanciam da gente, mais humanidade há nos cachorros. Ele só fazia lamber meu sorriso, e eu sorria mais. Ele me alegrava; eu era a alegria dele. Ele morreu cedo, eu fiquei. Tantos anos depois, aqui ainda estou, um pouco mais seco das lágrimas que chorei. Região sudoeste do Mar da Tranquilidade, Lua, 20 de julho de 1969. Pés estranhos àquele chão. Tão estranhos que o caminhar é engraçado: as pernas vão em largas hipérboles. Corpos desajeitados, equilíbrio risível, cai-se por nada; ao levantar, voa-se. Assim é um pequeno passo, salto gigante: o ponto B nunca foi tão distante do ponto A. Alcançar ali é chegar além, sob o pano negro das estrelas. Tão pequenos — imensos. A memória agiganta-se nos passos miúdos, no detalhe: então jambolões criam dálmatas. E, como estrelas tecendo um céu qualquer, das manchas na calçada e das pintas na pele do cãozinho surge a Lua, iluminando os jambolões, derramando-se dos olhos do Tucson — dois jambolões íntegros, olhos negros da anatomia, tão claros de amorosidade. Sim, cheguei à Lua. Por instantes, meus passos uniram-se aos dos astronautas, se não na geografia, no maravilhoso encanto do sagrado. Pois é no coração que verdadeiramente se passam as grandes coisas da vida — seja um pouso na Lua, a curta existência dos jambolões ou o carinho indelével de um dálmata.