(Gerada por IA) Outono, sol de fim de tarde, a luz oblíqua atingiu os olhos de Jurandir ao sair da clínica. Talvez por isso se tenham enchido de lágrimas, ao serem invadidos pelos raios como uma janela sem cortinas. As lágrimas escorregaram dos olhos, desceram pelas faces, tocaram-lhe salgadas os lábios. Jurandir já não sabia das lágrimas, se eram do sol, ou pelo resultado do exame no envelope que suas mãos trêmulas, ambas, seguravam com respeito e dor junto ao peito. Ali havia a imagem de seus ossos no contraste em branco e preto, e o longo relatório, revelando muito mais do que a sua limitada ciência poderia apreender, mas o suficiente para a intuição captar que o tempo, sempre tão incerto na extensão, lhe seria breve. Chegou em casa, escondeu o exame no fundo do armário, atrás das roupas penduradas. Foi à cozinha, beijou a esposa, sentou-se à mesa para o jantar. Sorveu a sopa, a palavra não veio. Calou-se. À noite, no silêncio da quase madrugada, as imagens do resultado desfilavam à frente de seus olhos escancarados, de sono espantado. Dormiu enfim quando a aurora acinzentada já se debruçava na dobra do mundo, mas somente após imaginar-se outro, em vez daquele Jurandir condenado, com o destino escrito naqueles papéis escondidos no guarda-roupa. Assim foi nos dias e noites seguintes: uma silente contagem regressiva. Mas uma contagem regressiva que não apenas lhe apontava o fim, mas retornava a muitos começos: o passado lhe era reapresentado em imensos blocos de memória, tão vívidos, como se fossem dobraduras no tecido do tempo. Fim de tarde de verão, na rua os gritos da molecada atrás da bola rolando sem rumo no asfalto irregular, o suor no rosto, o cabelo colado à testa: sem camisa, o peito aberto ao mundo, Jurandir era menino, sem sombra do exame, com o futuro ainda por vir. Derramou uma lágrima ao dançar-lhe diante dos olhos a imagem da menina na classe, duas fileiras à frente, o rosto dela de perfil, atenta à professora escrevendo na lousa. Subjugado pelo coração, o olhar do pequeno Jurandir não conseguia desviar-se dela. Mas logo o amor tomou outras feições, surgiram-lhe a esposa, o dia em que a conheceu, ela correndo para pegar o ônibus, a carteira voou-lhe da bolsa aberta e caiu aos seus pés. Jurandir agachou-se, pegou-a e nunca mais soltou — a mulher, claro. Vieram os dois filhos, menino e menina. A vida os levou, já se dispersaram no mundo — como tem de ser. Chegou o dia da consulta no médico. Resgatou o exame do fundo do armário, saiu sem dizer aonde ia. Aguardou na sala de espera. Ouviu seu nome, arrastou-se ao consultório. “Boa tarde, pode sentar, por favor”. O médico olhava o resultado. Sorria. “Está ótimo, saúde plena”. “Como assim?”. “O senhor está em ótima forma” e mostrou o resultado. Jurandir leu: nada. Saiu da sala confuso. Milagre, pensou. Ou algo mais? Entre o início e o fim, e as cores da memória, o que morre na vida é o que se viverá depois. Na rua, os carros zuniam, as gentes passavam apressadas, alheias. Na calçada, parado, Jurandir entendeu: nascera outra vez.