Imagem Ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Quem gosta de um café fresquinho nas manhãs frias de inverno? Eu não só gosto, como preciso: é condição básica para existir por mais um dia. Pois foi numa dessas manhãs, em que observava a fumaça erguendo-se sinuosa do coador para acariciar o teto da cozinha, que me ocorreu uma verdade tão inexorável quanto a certeza de meus olhos diante da fumaça sumindo no teto. E a verdade me bateu na cachola com pompas de passagem bíblica. Ei-la: “... Então o frio criou a preguiça”. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! É só a temperatura despencar a escadaria do termômetro e parar abaixo dos 20 graus para o corpo imaginar que o universo entrou em uma estranha nova realidade, em que o movimento de levantar da cama pela manhã é tão desprovido de sentido quanto ter que convencer alguém, em pleno 2024, de que a Terra é redonda. Mas vá que por artifícios da consciência, seja pela preocupação com o trabalho que ficará acumulado ou pelo compromisso consigo de emagrecer sete quilos e meio, o sujeito se convence de que precisa mesmo sair da cama. O que acontece, então? Sou testemunha não só ocular, mas de sentir na pele: o frio cria uma estranha magia que se apodera das cobertas, o corpo é enrodilhado por lençol e manta de tal forma que se transforma em lagarta no casulo. Luta-se contra, mas a prisão é mais forte: as mãos estão entrançadas no meio das pernas encolhidas em posição dos bebês na barriga das mães. Emersos, só os olhos imóveis encarando o guarda-roupa sem piscar. É casulo mesmo e nem adianta evocar a borboleta: é impossível se libertar até que o frio decida o tempo de novos voos. Porém, nem precisa ser primavera para o frio se decidir: por sorte, aqui no Brasil, ele se enjoa da gente com facilidade e vai passear em outros lados. E a preguiça, como fica? Abandonada pelo criador, tem que lutar sozinha pela sobrevivência. Mas ela é esperta: sabe que não teria força para bater de frente. Deixa a gente espreguiçar (movimento que ela inventou, como forma de adoração), levantar da cama, e preparar o café de que tanto se gosta — e precisa. Quando estamos com a xícara à nossa frente na mesa, ou bebericando do café, e enquanto pensamos no dia que se descortina, ela ataca. Vem à cabeça a imagem da academia — duas semanas sem ir. De hoje, não passa: vou retomar a atividade física. Então me lembro daquela dor no joelho e paro, assustado: melhor ver isso primeiro do que forçar. Pego o telefone para marcar consulta? Não, tomo outro gole do café antes que esfrie. E aquele curso on-line de História que está pago? Posso aproveitar para, enfim, começá-lo. Mas aí lembro que o computador está com pouca memória, precisa passar por uma revisão, provavelmente não vai funcionar direito, nem adianta ligar. Olho pela janela e lá está o sol, acima de um céu azul de vida. Praia? Não me vem à mente nenhuma objeção. No celular, confirmo: 30 graus, o frio já se foi. Mas deixou sua cria bem treinadinha. E que adora uma praia.