(Imagem Ilustrativa/FreePik) Cada coisa tem seu tempo, já dizia meu avô. Ele provou do próprio ditado da pior maneira ao ter esquecido de jogar os seis números premiados, já escolhidos e marcados no volante, de uma Mega-Sena hoje distante — e de amarga recordação. Pensar que o prêmio naquele sorteio acumulou torna esse tempo perdido ainda mais amargo: afinal, pelas vias de meu avô, o meu tempo poderia ter sido bem outro... Mas não há que se lamentar. Na verdade, é um equívoco afirmar que há tempo perdido: vovô, você tinha razão, cada coisa tem seu tempo. Talvez não fosse tempo de ganhar na Mega-Sena (não perco a esperança de os relógios darem em breve as badaladas da sorte...). Mas, se não derem... que se vá, como você também foi, vovô. Não existe perda ou ganho: no tempo, só há desencontros. Felizmente, um deles foi muito bem reparado pelo destino. Pois não é ficção que minha esposa, Luciana, e eu tenhamos nascido no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo lugar — mas com um ano de diferença. Mistérios do tempo: cada um no seu, temos o nosso, quarenta e oito anos depois da maternidade, para ela, quarenta e nove, para mim. Cada coisa tem seu tempo: imagine abrir a cerveja dois graus acima daquela temperatura ideal do semicongelamento? Que decepção seria. Ou não ver o cometa do século por causa de um céu encoberto — não se pode confiar em que o céu há de respeitar o tempo do cometa. Ou deixar de fazer xixi antes de sair de casa e a vontade apertar no ônibus? Ou perder a medida da ansiedade, como se esta, só por dar as caras toda saltitante, pudesse mudar o tempo das coisas. Mas não pode, pois cada coisa tem seu tempo: cuidado para não bobear e perder a passagem do cavalo selado — aquele que, todo mundo sabe, só passa uma vez. Sabe aquela viagem dos sonhos? Sim, é isso: ela virá no seu tempo. Mas não custa nada planejar, comprar as passagens, reservar o hotel, alugar o carro, mesmo sabendo que um dia antes, se não for o tempo, a vida irá se impor e a viagem não sairá do chão — e creia: será para melhor. Cada coisa tem seu tempo: minha filha mais nova abraçará o seu com todas as garras e deixará para trás muitos tempos, como casulos esvoaçantes, dando lugar a um renascimento a cada curva da existência — e eu hei de ficar para trás, como tem de ser: pois então todo o tempo será dela. E quando todo o tempo for dela, aprenderá que cada coisa tem um tempo. Como já dizia o meu avô e eu fiquei repetindo nesta crônica.