Alhos e maracujares () Em tardes de preguiça, pela Rua João Pessoa, entre adolescentes de uniforme e pasta de plástico embaixo do braço, mulheres agarradas às bolsas analisando vitrines e homens falando sozinhos ou com Deus, despontava Zé Riacho, duas ou três quadras além. Vinha em ziguezague pela calçada, pé arrastado no chinelo de dedo, empurrando o inseparável carrinho de mão, de tal forma que pareciam unidos desde a barriga da mãe: um desconjuntado centauro de carne e lata. Porém, apesar da figura mítica que surgia a distância sob a luz pálida do sol. costumava-se notar a presença do Zé antes pela audição do que pelo olhar. De longe, por entre as buzinadas de pressa e os gritos do escapamento das motos, sobressaía o bordão: “olha o alhos; olha o maracujares”. Zé era gente que trilhava caminhos diferentes dos da maioria. Vendia no Centro o que a terra dava lá no sítio dele em Monte Cabrão, “bem encostado no morro para segurar as pedras do destino”, como dizia. As vendas eram apenas para realimentar a produção da terra, em um ciclo sem partidas ou chegadas. “Mas, Zé, você não tem o desejo de prosperar?”, lhe perguntavam. “Prefiro esperar: o tempo vem e leva em frente”. Para todos, sempre foi apenas o Zé Riacho: nunca ninguém soube seu verdadeiro nome. “Meu RG é meu coração”, o registro geral onde seguia coletando mar e sonho de nuvem, o sabor do chocolate e a dor dos partos nas esquinas. Porém, sabíamos do apelido Riacho: “É de onde eu nasci: corria lá uma água tímida que se perdia no mato. Dava sono o burburinho. Já quis ser rio: iria mais longe. Mas a enxurrada rouba a paz”. Zé vestia camisetas de batmans e super-homens amareladas de terra esfregada, trazia as unhas enegrecidas, o cabelo cinzento em redemoinhos e caraminholas, o suor escorrido, seco na pele tesa sobre músculos de quem empunha enxada e ancinho. Mas a figura bruta contrastava com o odor que exalava de seu corpo: um aroma doce, de ervas e especiarias cultivadas sob a luz de Bagdá. “Banho? Começo lavando de dentro. Se dá tempo, lavo por fora; se não, paro por aí mesmo: só precisa limpar quando tem falta de riso ou sono revirado”. Certa vez, mencionaram que falava errado, ‘alhos’ e ‘maracujares’, que resvalava na gramática, coisa feia, Zé: tinha ido na escola? Ele devolveu para o incauto: “Quem disse que tem gramática na escola? Pois é na gramática que tem escola. E pelo mundo tem muita gramática: meu pronome não é teu; ser e estar, caso seja, estará; porém, para estar, verbo ser é ação; nessa toada, entre tu e mim, careço saber de sujeito tão mais menor de predicados, pobre objeto da desimportância”. E foi-se embora no arrasto do chinelo e bradando: “olha o alhos; olha o maracujares”.