(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Dia de arrumação dos guarda-roupas. Sob medida, embutidos até o teto nas largas paredes dos quartos, são cavernas de madeira maciça. Guardam tanta coisa, escondem tanto. Ele não tem muita prática para esses afazeres: subir e descer a escada, abrir portas, tirar tudo; passar flanela, eliminar poeira, reconhecer o lixo, reorganizar. Quem costumava fazer isso, com gosto, até, era Maria. Como Maria era rápida! Subia e descia como se tivesse asas... olha a escada ao seu lado, o guarda-roupa, imagina Maria; desvia o olhar, vai além do quarto, ao apartamento: nem é tão grande, como cabe tanto silêncio? Retoma a atenção na escada: sobe degrau por degrau. Nunca pensou que uma escada seria assim, cheia de armadilhas e ar rarefeito — como escalar montanhas. As pernas pesadas. Talvez seja o chão puxando com mais força. Não teria o direito de voar, como Maria? Degrau por degrau. É. Abre o maleiro. Logo aquele. Sabia, não sabia: faz de conta que não sabia. Retira a caixa quadrada de madeira com cuidado, segurando-a por baixo, exatamente como Maria costumava fazer. Apoia a caixa na escada. As mãos tremem — isso deve ser a idade; a idade deixa o corpo livre, o corpo faz o que quer, até tremer quando não deve. Desce, ileso. Pega a caixa, põe sobre a cama. Decide não abrir. Vai, passinhos miúdos, no ritmo dos pés de Maria; aliás, os chinelos são os dela, de camurça fechados na frente, abraçando os dedos. Para na porta da cozinha. Sorri, como Maria a cada manhã, um segundo antes de dizer bom dia. Liga o rádio com a mão esquerda — Maria era canhota — sintoniza na estação das notícias, do locutor preferido dela. Na sala, lá estão as plantas. Maria adorava as orquídeas. Dizia que elas são um milagre: da fragilidade, tanta beleza. Que horas são? Três da tarde. Exatamente o tempo de regá-las. Volta à cozinha, pega o copo. Enche. Metade água gelada — Maria acreditava que a água fria acalmava as plantas. De novo na sala, abre a janela, o sol escorre, brilha o chão, o piso. Lembra de Maria, que regava as plantas ofuscada pela luz. Vai derramando a água nos vasos, a porção de cada uma, igualmente. Assim era Maria: cada gota, a cada planta. Ele sorri: devia ser do signo. Lá na cozinha, do rádio uma voz murmura. É aquele samba. O samba de Maria. Até dançava quando ouvia. Ele sai dançando pelo apartamento, no corredor. Ao passar pelo banheiro, breca — samba de breque? Ri da brincadeira, típica dela... entra no banheiro, ignora a imagem no espelho. Acerta a toalha de rosto, que estava torta. Maria e suas manias... Segue a dança, volta ao quarto. Lá está a escada, as portas do maleiro escancaradas, a caixa de madeira sobre a cama, onde a deixara. Ao vê-la, estremece. Pensa em seguir a dança, avançar aos outros quartos, tantas vidas. Mas a música acaba, o samba dilui-se no ar. Ele se vê turvo, como se estivesse sendo apagado do mundo. Entre lágrimas, atira-se à caixa sobre a cama. Imagina as fotos, as imagens dos vestidos, dos verões, das vitórias, de todos os tempos de Maria. Sôfrego, abre a caixa. Mas suas mãos se recolhem, o corpo se contrai. Não há vida, não há milagre: a caixa está vazia; a caixa sempre esteve vazia.