(Gerada por IA) Germana abriu os olhos arrancada do sono, o peito oprimido: hoje faz dois anos. Sem vontade, levantou, calçou os chinelos. Carregou-se ao banheiro. Pegou escova e pasta, olhou-se no espelho: os sulcos, as rugas, os rumos, os descaminhos, os acidentes. As alegrias. Pois houve alegrias. Sempre haverá alegrias. Os cabelos transparentes de tão alvos, algodão amargo: poderia ser ela. Deveria ser ela. Dois anos, já. Passeou os dedos pela cômoda à procura de algo. Não estava ali. Não estaria. Os dedos tatearam sozinhos, à revelia. Ou emissários de alguma esperança tola que, sabia, era sua, apenas sua, de mais ninguém: faz dois anos. Qual o problema em ter esperança no impossível? Arrastou-se, arrastou os chinelos nos tacos soltos até a cozinha. Ecos, murmúrios de panelas, do abrir e fechar das gavetas. A água no fogo, o pó de café no filtro. Prepara a mesa: dois pratos, duas xícaras, em cada lado da mesa. Garfos, facas. O pão, a manteiga. Os guardanapos dobrados. Deteve-se no dele: o esmero nas mãos, como se fosse carinho. Só podia ser carinho: o contrário desse vazio. Corta o mamão ao meio, retira as sementes ao raspar a colher, como sempre fez. Cada metade em um prato. Senta-se à mesa, não mexe em nada. Vinte e quatro longos meses. Germana fecha os olhos na ânsia de ver melhor. Aperta-os, para engolir-se neles: como viveu esses dois anos? Sente-se naufragar, sumir em águas turvas. Está prestes a desaparecer no fundo do mar sem reagir. Mas de repente um peixe ou vaga de oceano arrebata-a para cima. Os olhos de Germana saltam fora de si, abrem-se imensos. O coração aos pulos. Pois ali, à mesa, está ele. Calmo, de cabeça baixa, concentrado em firulas de colher sobre o mamão. Como se hoje não fizesse dois anos. Como se nunca houvesse partido. “Você não está aqui de verdade”, Germana diz, um fiapo de voz. Ele parou de rodopiar a colher. Olhou para ela. “E onde eu estaria, senão aqui?”. “Mas você...”. “Nada”. “Nada?”. “É, nada. Você disse que eu não estou aqui de verdade. De onde você tirou a ideia de que sabe o que é de verdade?”. “Eu não sei...”. “Pois é: não sabe de onde tirou a ideia. Muito menos o que é de verdade”. “Você sempre foi de verdade...”. “Fui?”. “Você é...”. “Sou. De verdade”. “Mas como...?”. “Não se deixa de ser de verdade por qualquer coisa”. “Qualquer coisa?”. “É. O que passa sempre pode estar, pode ficar”. “Você ficará?”. “Se você quiser”. De repente sumiu, não está mais à mesa, o mamão intocado. Germana sente o peito apertar: miragem? As ondulações do vitrô tecem da luz um arco-íris. Os matizes derramam-se pela cozinha, inundam-lhe o rosto. Germana sorri: embora mal se toquem, as cores sempre caminham juntas.