(FreePik) A luz da varanda do apartamento no prédio vizinho nunca é apagada. Foi o que minha esposa constatou dia desses. Foi ela chamar minha atenção para eu ficar encafifado. Desde então, é um suplício desgrudar os olhos da tal varanda. Passei a fazer as refeições na sala, mais precisamente no sofá, e nem sequer pisco enquanto mastigo. Comecei a dormir na sala de olhos abertos, fixos na varanda. Tevê assisto só com um olho. Ir ao banheiro? Virou evento raro, só em último caso mesmo. Essa vigília quase perpétua já completou dez dias. Tudo porque não quero perder o momento em que a luz se apagará – sim, toda luz um dia se apaga. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Por enquanto, lá está ela, amarela, de um brilhante tímido durante o dia, nada mais do que um pontinho fixo, como uma bola de tênis pendurada em um suporte no teto de madeira da varanda. À noite, em meio à escuridão reinante na vizinhança, ela se avoluma. Não em tamanho, mas na importância do brilhar: por artes da concessionária de energia, chega a cintilar como as estrelas dos confins da galáxia, mas com a imponência imutável do sol que dita os rumos da vida e da morte neste planeta de azul cada vez mais pálido. Mas a luz é fruto de uma lâmpada modesta, sem ideia ou fantasia. Não de uma lâmpada que, ao surgir sobre a cabeça de algum personagem de revista em quadrinhos, muda os rumos da história e é crucial para que todos cheguem à última página felizes para sempre. Ou, melhor ainda, uma lâmpada à base de azeite que guarda em seus recônditos o gênio dos três pedidos. Ainda que houvesse um gênio escondido na lâmpada da varanda, não consta que meu vizinho seja Aladim: haja sabedoria para lidar com a possibilidade de, a partir de uma inocente esfregada na lâmpada, ter o poder de criar para si, ou até mesmo para o mundo, uma nova realidade. Lá está ela, acesa há 20 dias. Nas lidas diárias, aquelas que vão esfarrapando o frescor das novidades, perdi o frisson inicial de acompanhar dia e noite a luminescência, para estar presente quando se extinguisse. Pelo contrário: até me afeiçoei à luz. Ao ponto de renegar o que escrevi acima, de que as luzes sempre se apagam. Meu desejo agora é de que essa luz da varanda do vizinho jamais se apague: ainda que nada ilumine, fique para sempre como um ponto de apoio, a esperança de que, enquanto houver acesa essa luz, o mundo se sustentará nem que seja por um fio, o suficiente para a esperança se refazer a cada tiro, bomba ou maledicência. Agora me deem licença: vou ali na janela verificar se a luz continua acesa.