O maior erro que o Brasil pode cometer é continuar administrando seus portos como se estivéssemos em 2010. Não estamos. Enquanto o debate nacional ainda discute quem vai operar o guindaste, outros países já discutem quem vai controlar a rota. Essa é a distância real entre o Brasil e o resto do mundo em matéria de infraestrutura crítica. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O Porto de Santos deixou de ser apenas o maior porto da América Latina. Tornou-se um ativo geopolítico global, e ninguém perguntou ao Brasil se ele estava preparado para isso. Quando Estados Unidos, China e Europa observam o mesmo terminal com o mesmo interesse estratégico, a conversa já não é sobre logística. É sobre quem vai decidir o futuro do comércio brasileiro: nós, ou eles. A disputa em torno do Tecon Santos 10 escancarou isso. Pela primeira vez, um terminal brasileiro deixou de ser tratado como negócio operacional e passou a ser lido como peça de segurança de cadeias de suprimentos, influência política e controle de infraestrutura crítica. Não se discutia quem operaria melhor. Discutia-se quem teria a chave. Aqui vai uma provocação incômoda: você pode ter o melhor terminal do continente e, ainda assim, não ter poder nenhum sobre o seu próprio destino. Eficiência operacional não compra soberania. Nunca comprou. Os grandes portos do mundo pararam de competir por produtividade. Competem por influência. Governos transformaram infraestrutura portuária em instrumento de política externa, e o Brasil segue tratando isso como pauta de secretaria de transportes. A guerra comercial, as tarifas e a regionalização da produção já mostraram como decisões tomadas em outros países alteram, da noite para o dia, os fluxos que sustentam Santos. Não fomos consultados. Apenas sentimos o efeito. Nesse tabuleiro, governança deixou de ser boa prática corporativa. Virou arma. Regras previsíveis, segurança jurídica, agências reguladoras técnicas e capacidade de separar decisão de Estado de pressão de ocasião: isso é o que atrai capital de longo prazo. O resto é só promessa de política. Investidor sério não escolhe onde existe mercado. Escolhe onde consegue prever o futuro daqui a 20 anos. E o Brasil, historicamente, não vende essa previsibilidade. O problema não é falta de projeto. É falta de estratégia. Discutimos cada obra isoladamente, como se infraestrutura crítica fosse uma coleção de casos avulsos, e não uma peça de posicionamento nacional. Qual o papel de Santos na inserção internacional do Brasil? Quais ativos precisam permanecer sob controle nacional, e quais podem — e devem — ser abertos ao capital estrangeiro? Essas perguntas quase não aparecem no debate público. E deveriam ser as únicas que importam. O Porto de Santos movimenta carga. Movimenta também investimento bilionário, segurança alimentar, energia, cadeia industrial e emprego. Movimenta, acima de tudo, poder — e poder que não é administrado por nós é administrado por outra pessoa. Nenhum país relevante trata seu principal porto como obra pública. Todos o tratam como ativo de Estado, discutido no mais alto nível de governo. O Brasil ainda não fez essa escolha. E cada ano de indecisão é um ano em que outros decidem por nós. Liderar, neste momento, não é operar bem o que já existe. É construir consenso institucional capaz de atravessar governos, blindar decisões estruturais de pressão eleitoral e pensar em ciclos de 20 anos, não de quatro. Os navios que atracam em Santos carregam mais do que contêineres. Carregam as disputas do século 21 — e o Brasil ainda não decidiu de que lado do balcão quer estar. A pergunta não é mais se o Brasil vai tratar Santos como ativo estratégico. A pergunta é: se não formos nós a decidir isso, quem vai decidir por nós?