(Imagem ilustrativa gerada por IA) No próximo domingo, o Brasil vai às urnas. Na segunda-feira, às 6 horas, o primeiro terno assume o costado no Porto de Santos. Na Anchieta, a fila de caminhões já se forma rumo aos terminais. O depot (depósito de contêineres) libera o primeiro vazio. O Terminal Retroportuário Alfandegado (TRA) abre o armazém. O Recinto Especial para Despacho Aduaneiro de Exportação (Redex) recebe a carga do exportador. Ninguém ali sabe quem lidera a apuração. A maré não consulta pesquisa. O País entra no último trimestre dividido entre a urna e o cais. E a comunidade portuária, como sempre, segue trabalhando enquanto o resto discute. Segue em ritmo forte. Em agosto, Santos movimentou 538,2 mil TEU (unidade de medida de um contêiner de 20 pés), o melhor agosto de sua história em contêineres, alta de 3,9% sobre o ano anterior. Até agosto, foram 4 milhões de TEU e 125,9 milhões de toneladas, com recordes também em granéis sólidos e líquidos. O trimestre que começa agora é de pico: safra escoando, importações de fim de ano, contratos de 2027 sendo desenhados. Ano eleitoral traz uma tentação silenciosa: “vamos esperar passar a eleição”. O investimento fica para depois. A contratação aguarda. A decisão difícil vai para janeiro. Com primeiro turno em 4 de outubro, eventual segundo turno em 25 e diplomação até 19 de dezembro, o calendário oferece a desculpa para congelar o trimestre. Liderar nunca foi decidir apenas quando o cenário está claro. Isso qualquer planilha faz. Liderar é agir na névoa, separando com frieza o que depende de Brasília do que depende de nós. Quem governará a partir de janeiro depende do eleitor. Mas a produtividade do berço, o giro do depot, a ocupação do armazém alfandegado, a frota revisada da transportadora, o agendamento no gate e o preparo das equipes para dezembro dependem das lideranças que estão aqui, agora. E é bom lembrar: o navio é só a ponta visível. O pico se decide na retroárea. Um TRA congestionado trava a desova. Um depot sem vazio atrasa o embarque. Uma transportadora sem motorista esvazia a janela de atracação. Na Baixada Santista, ninguém opera sozinho. Quando um elo hesita, a cadeia inteira paga. Um guindaste parado por falta de peça não volta a girar com discurso. Um contêiner que perde o deadline no Redex não embarca com promessa de campanha. A operação não premia quem tem a melhor opinião sobre o futuro. Premia quem chega preparado ao presente. E há um fator que nenhuma pesquisa mede: o ânimo das equipes. Em tempos de polarização, o ruído entra no refeitório, na cabine do caminhão, na troca de turno. O líder que se omite abre espaço para a insegurança. O que toma partido divide o time. O caminho é dar foco: meta clara, prioridade definida, rotina protegida. A equipe não precisa da opinião do chefe. Precisa de direção. Isso não significa indiferença à eleição. O setor deve cobrar de quem vencer, seja quem for, uma agenda de Estado: acessos terrestres, dragagem, integração ferroviária, segurança jurídica e regras aduaneiras estáveis. Obras portuárias atravessam mandatos e não podem ser reféns de nenhum deles. O voto é do cidadão. A preparação é da liderança. Há também uma responsabilidade dos conselhos. É nestes 90 dias que se aprovam os orçamentos de 2027. Orçamento construído na espera nasce velho. É preciso trabalhar com cenários, não com torcida. Quem planeja cenários decide em dias. Quem espera certezas decide em meses. O último trimestre escreve o primeiro capítulo do ano seguinte. O cliente bem atendido no pico de dezembro, do terminal à transportadora, é o mesmo que renova contrato em março. Na próxima segunda-feira, o porto estará funcionando, do cais ao último pátio da retroárea. A pergunta não é quem vai vencer a eleição. A pergunta é: quando o resultado sair, o seu elo da cadeia estará pronto ou ainda esperando? *Roberto Teller, diretor de operações da Movecta