Muito se fala sobre ESG no Brasil. Ambiental e social dominam discussões, relatórios e discursos. Mas o “G” de governança, que deveria ser o eixo estruturante de tudo, segue sendo o componente mais negligenciado. No Porto de Santos, isso começa a cobrar um preço cada vez mais alto. O Porto não sofre por falta de investimento potencial nem por ausência de operadores qualificados. Sofre por ausência de um modelo de governança sistêmica, que integre decisões, alinhe incentivos e estabeleça prioridades claras de execução. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Hoje, o Porto santista opera como um conjunto de excelências locais, mas sem uma orquestração central efetiva. Cada elo busca sua eficiência, enquanto o sistema como um todo perde competitividade. O resultado está exposto. A ausência da terceira via de acesso não é apenas um atraso de infraestrutura, é um sintoma clássico de falha de governança. Projetos existem, diagnósticos são conhecidos, mas a decisão integrada não acontece. O mesmo vale para o Tecon Santos 10. A discussão tem sido conduzida sob a ótica de capacidade e competição, quando deveria estar inserida em um plano sistêmico de longo prazo, que considere acessos, retroárea, regulação e equilíbrio concorrencial. Governança não é decidir projetos isoladamente. É decidir o conjunto. Se quisermos evoluir, será necessário mudar o modelo mental. E isso passa por algumas ações objetivas. Primeiro, a criação de um fórum permanente de governança portuária, com participação vinculante de União, Estado, Município, operadores e reguladores. Não um espaço consultivo, mas deliberativo, com metas claras e accountability compartilhado. Segundo, a definição de um plano mestre obrigatório, com horizonte mínimo de 20 anos, que integre expansão de capacidade, mobilidade urbana, acessos logísticos e uso de retroárea. Sem isso, cada investimento continuará sendo feito de forma reativa. Terceiro, a implantação de indicadores sistêmicos de desempenho. Hoje medimos eficiência de terminais, mas não medimos eficiência do porto como ecossistema. Tempo total de permanência da carga, custo logístico integrado e previsibilidade operacional devem ser métricas centrais. Quarto, a vinculação de licenças e novos projetos à capacidade real de escoamento. Não faz sentido expandir cais sem garantir fluidez fora dele. Quinto, a incorporação definitiva da inteligência artificial na gestão portuária, não apenas como tecnologia, mas como mudança de mentalidade. A IA já permite previsibilidade de demanda, otimização de pátios, roteirização dinâmica e tomada de decisão em tempo real. Ignorar isso é comprometer competitividade. Mais do que investir em sistemas, será necessário requalificar profissionais e executivos, desenvolver novas competências e abandonar modelos mentais baseados apenas em experiência passada. Por fim, talvez o mais difícil, a profissionalização plena das instâncias de decisão, reduzindo interferências de curto prazo e aumentando a responsabilidade técnica sobre decisões estruturantes. Isso é governança. Sem esse avanço, continuaremos tratando sintomas, enquanto o problema estrutural permanece intocado. E o risco é claro: o Porto de Santos crescerá em volume, mas perderá competitividade relativa. O “G” do ESG não é um conceito. É um mecanismo de destravamento. A pergunta não é mais se o porto precisa crescer. Isso é inevitável. A pergunta é se teremos coragem de governá-lo como sistema ou se seguiremos administrando partes enquanto o todo perde eficiência. O futuro do maior porto do Hemisfério Sul não será definido pela sua capacidade de movimentação. Será definido pela qualidade das decisões que tivermos coragem de tomar agora.