(Praticagem da Bahia/Divulgação) Os portos brasileiros vêm se modernizando em ritmo acelerado nos últimos anos, impulsionados principalmente pelos investimentos privados. Esse movimento não apenas marcou o passado recente, como projeta um ciclo ainda mais intenso de aportes. Como exemplo, o Governo Federal prevê, em 2026, a realização de 18 leilões, com investimentos que podem superar a casa dos bilhões. Enquanto isso, os terminais já instalados seguem ampliando sua capacidade operacional, incorporando tecnologia e elevando seus padrões de eficiência. Esse avanço, porém, revela um paradoxo estrutural. À medida que a capacidade de movimentação cresce dentro do cais, os gargalos tendem a se intensificar fora dele. Isso ocorre porque a logística portuária é um sistema integrado, cujo desempenho depende do elo mais frágil. Quando a expansão operacional não é acompanhada, na mesma proporção, pela infraestrutura do entorno, cada ganho de produtividade dentro do terminal desloca a pressão para os acessos terrestres. Nesse contexto, não há trecho mais sensível do que o acesso final ao porto, onde o fluxo logístico passa a disputar espaço com o tráfego urbano, cuja expansão é, por natureza, limitada pela própria cidade. Trata-se de uma tensão recorrente entre porto e território, também observada em áreas metropolitanas densas como Los Angeles (EUA), Roterdã (Holanda) e Hamburgo (Alemanha). O resultado é um efeito de retornos decrescentes, no qual cada real adicional investido na modernização dos terminais tende a gerar impacto menor sobre a eficiência da operação, reduzindo parte do ganho que justificou o investimento inicial. É neste ponto que o caso do Porto de São Sebastião ganha relevância como exemplo. Com movimentação atual próxima de 1,5 milhão de toneladas anuais, o porto apresenta um grande potencial de crescimento, o que o qualifica para uma expansão imediata. Tanto que já está estruturado o projeto de arrendamento de um novo terminal multipropósito, com capacidade projetada para movimentar até 1,35 milhão de TEU (unidade de medida de um contêiner de 20 pés) e 3,45 milhões de toneladas de granéis sólidos, elevando de forma significativa o patamar operacional do complexo ao longo da próxima década. O aspecto mais interessante, porém, está na lógica adotada para viabilizar essa expansão. Antes mesmo de estruturar o ativo portuário, o Governo do Estado enfrentou o principal limite ao seu crescimento, os acessos. Foram investidos cerca de R\$ 3 bilhões na ampliação da Rodovia dos Tamoios, além da implantação de um acesso direto da rodovia ao porto. Com isso, os caminhões passam a acessar o complexo sem interferir na malha urbana, organizando melhor o fluxo de cargas e trazendo mais previsibilidade para quem opera e para quem investe. Esse exemplo mostra como o planejamento público pode criar as condições para que o investimento privado avance com mais segurança e previsibilidade. No caso de São Sebastião, ao antecipar desafios e tratar os gargalos antes que se transformem em entraves, amplia-se a área de influência do porto e fortalecem-se as conexões com as regiões industriais do estado. O resultado é um ambiente mais estável e confiável, que favorece decisões de investimento e o crescimento no longo prazo. O fato é que a competitividade portuária vai além dos investimentos realizados dentro do terminal. Ela depende da harmonia entre capacidade instalada, qualidade dos acessos e visão territorial. Em um cenário de bilhões de reais previstos para o setor nos próximos anos, talvez o verdadeiro diferencial esteja menos no volume de recursos e mais na capacidade de coordenar esforços e estabelecer prioridades com antecedência. No fim, não se trata apenas de investir mais, e sim criar as condições para que o crescimento aconteça de forma consistente, equilibrada e sustentável ao longo do tempo.